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O aquecimento global causado pela indústria do carbono

Os 90 maiores produtores industriais de carbono respondem por mais da metade do aumento histórico da concentração atmosférica de gás carbônico – CO2 -, afirma estudo de cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Aos produtores industriais de carbono também pode ser atribuída uma significativa contribuição no aumento da temperatura média global e do nível do mar.

A principal abordagem para quantificar as emissões históricas de gases de efeito estufa adota países individuais como unidade de análise. É o caso, por exemplo, da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – UNFCCC, na sigla em inglês -, pela qual ficou estabelecida a responsabilidade das nações em evitar interferências perigosas no sistema climático. O acordo climático de Paris se baseia na mesma abordagem, prevendo compromissos de mitigação para cada um dos países.

Todavia, segundo o estudo, também se pode quantificar as emissões tendo atores não estatais como unidade de análise. Uma das abordagens foca em empresas multinacionais de exploração de combustíveis fósseis, como companhias de petróleo, pois elas representam a base da cadeia de fornecimento de carbono. É a partir dos produtos comercializados por essas empresas que se irá gerar boa parte das emissões de gases de efeito estufa.

A quantificação das emissões atribuídas aos produtos de companhias tem recebido crescente atenção. Análise realizada anteriormente indicou que quase dois terços de todas as emissões industriais de CO2 e de metano – CH4 – vieram de produtos comercializados por 83 empresas produtoras de carvão, petróleo e gás natural e de 7 fabricantes de cimento. Os cientistas buscaram com o estudo aprofundar a análise, detalhando como as emissões atribuídas às companhias interferiram no aumento das concentrações atmosféricas de CO2 e CH4, bem como no aumento da temperatura média global e do nível do mar.

Utilizando um modelo climático, os cientistas investigaram qual a fração dos gases de efeito estufa emitidos pelo consumo dos produtos da indústria do carbono permaneceram na atmosfera. A partir daí, calcularam o aumento resultante na temperatura média global e no aumento do nível do mar. Foram considerados dois períodos de tempo. O primeiro, entre 1880 e 2010, representa as emissões históricas, e o segundo, de 1980 a 2010, uma etapa mais recente.

Contribuição do período histórico 1880-2010 (coluna da esquerda, letras a, c, e) do período recente 1980-2010 (coluna da direita, letras b, d, f) rastreadas para os 20 maiores produtores de carbono industrial. As barras laranja mostram empresas privadas, e as azuis, estatais. De cima para baixo, os gráficos mostram a contribuição de cada companhia para o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, da temperatura média global, e do nível do mar em cada período. Fonte: figura 2 do estudo.

Os resultados sugerem que entre 1880 e 2010, as emissões atribuídas aos 90 principais indústrias produtoras de carbono levou a um aumento de 0,4°C da temperatura média global. Isso corresponde a 50% do aumento total do período, estimado em 0,8°C. Na época mais recente, entre 1880 e 2010, essa participação sobe para mais de dois terços do aumento registrado. As vinte maiores empresas contribuíram com aproximadamente 24% do aumento da temperatura entre 1880 e 2010 (gráfico acima). As duas maiores empresas privadas, ExxonMobil e Chevron, e as duas maiores estatais, Saudi Aramco e Gazprom, reponderam sozinha por 10%.

Um pouco mais de dois terços do aumento do nível do mar observado entre 1880 e 2010 foi associado ao carbono produzido pelas empresas. As vinte maiores responderam entre 13% e 16% do aumento do nível do mar, boa parte em função das emissões mais recentes, entre 1980 e 2010. Quanto às concentrações atmosféricas de CO2, a queima dos produtos das 90 indústrias de carbono provocou um aumento de 58,8 ppm, 57% do total do período histórico, entre 1880 e 2010. A maior parte do aumento, 43,8 ppm, esteve concentrada entre os anos de 1980 a 2010.

Mais da metade das emissões totais provenientes dos produtos das 90 principais indústrias produtoras de carbono se deu a partir de 1986. Os cientistas ressaltam que nesse ano os riscos do aquecimento global e das mudanças climáticas eram bem conhecidos. Ainda assim, nenhuma resposta no sentido da mitigação foi apresentada pelas empresas, especialmente por aquelas privadas. Em vez de investimento em tecnologias de energia de baixas emissões, ou apoio a políticas e legislação climáticas, verificou-se um incremento na produção de petróleo, carvão e gás.

Mais informações: The rise in global atmospheric CO2, surface temperature, and sea level from emissions traced to major carbon producers
Imagem: Pixabay

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