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Educadores devem estar atentos ao negacionismo

Educadores e pesquisadores do ensino de ciências devem estar atentos ao negacionismo do aquecimento global, alertou artigo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com vozes ativas na esfera pública, os negacionistas fabricam controvérsias científicas para confundir as pessoas sobre problemas ambientais.

Segundo o artigo, uma das abordagens utilizadas recentemente no ensino de ciências está centrada em questões sociocentíficas. Ela busca promover um ensino com mais reflexão e sensibilidade às questões da sociedade. Estimula-se uma postura crítica, expondo o aluno ao processo de construção do conhecimento científico.

Nesse sentido, a abordagem traria ao aluno uma visão mais realista de como se faz a ciência. Em vez de fixo e acabado, o objetivo é levar à compreensão de que o conhecimento científico resulta de uma construção social que envolve debate e argumentação.

Nessa linha, os pesquisadores identificaram alguns trabalhos que discutem o aquecimento global sob a perspectiva da controvérsia. Tais trabalhos sugerem que o aquecimento global antropogênico seria ainda um tema de amplo debate na comunidade científica.

O problema é que, em realidade, há um amplo consenso entre especialistas a respeito da influência do ser humano no sistema climático. Dessa forma, ao tentar promover um ensino crítico da ciência, professores e pesquisadores do ensino podem favorecer o contrário. Eles acabam sendo vítimas do discurso elaborado por um movimento de negacionismo ambiental que possui ou representa interesses políticos e econômicos relacionados à questão.

Controvérsia e consenso na ciência

Revisando a literatura a respeito da filosofia da ciência, o artigo destacou que tanto o consenso quanto o desacordo ou a controvérsia constituem momentos da prática científica. O consenso inclui a aceitação unânime de uma teoria pela comunidade científica.

Por outro lado, a controvérsia ocorre quando existem teorias divergentes. Ela surge quando cientistas entram em desacordo, de forma pública e persistente. Ela também tem um caráter coletivo, pois envolve outros membros da comunidade científica, que participam do debate e julgam os méritos de cada posição.

Nem toda disputa pública entre cientistas constitui uma controvérsia. Tampouco questionamentos de alguém sem a necessária competência, que seja tendencioso ou que levante argumentos previamente refutados. A controvérsia depende do reconhecimento, por partes substanciais da comunidade científica, do mérito científico dos argumentos em disputa.

Além disso, muitas vezes, protagonistas dissonantes continuam defendendo suas posições, mesmo após terem sido superadas pelo término de uma controvérsia.

Portanto, uma questão central identificada pelos pesquisadores é que a ciência possui um caráter comunitário. Ela se forma ao longo da história a partir de um complexo processo público e dinâmico de argumentação, debate e diálogo.

A formação do consenso na ciência climática 

No caso do tema do aquecimento global e das mudanças climáticas, a investigação científica a respeito da troca de energia entre o sistema climático e o espaço teve início nos séculos 18 e 19. Resumido pelo artigo, o desenvolvimento histórico da ciência climática ilustra como a teoria do efeito estufa pelo dióxido de carbono – CO2 – passou por um processo de debate, questionamentos e controvérsias por mais de 100 anos.

Foi apenas entre a metade e o final do século 20, devido aos avanços no conhecimento científico, bem como ao levantamento de uma quantidade cada vez maior de evidências, que se criou um consenso a respeito do papel do CO2.

E a partir de 2001, os dados e observações permitiram a identificação pela comunidade científica de que está em curso um aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa – como o CO2 – pelas atividades humanas.

Os pesquisadores apontaram as diversas manifestações do consenso científico em torno do tema. Uma delas foi o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, IPCC na sigla em inglês, cuja elaboração reuniu milhares de cientistas.

As declarações publicadas por centros meteorológicos, como a Organização Meteorológica Mundial, e por academias científicas de inúmeros países, como, entre outros, o Brasil, a Alemanha, o Canadá, a China ou os Estados Unidos, representam também uma forma de expressão do consenso.

Uma controvérsia fabricada

Especialmente nos países de língua inglesa, apesar do consenso científico, a opinião pública parece dividida quando o assunto é o aquecimento global. Os pesquisadores analisaram as razões para essa discordância, discutidas na literatura.

De acordo com eles, o principal elemento para a confusão do grande público é a existência de uma campanha de desinformação. Grupos econômicos que possuem interesses diretos no tema, como a indústria dos combustíveis fósseis, atuam para fabricar controvérsias científicas.

Por meio de ações deliberadas, esses agentes procuram difundir na opinião pública a noção de que ocorre um debate científico em curso sobre uma questão, quando, na realidade, verifica-se um um consenso científico esmagador. A tática adotada mais importante consiste na promoção da dúvida.

Uma das formas é a produção de informações distorcidas, especialmente na internet. O IPCC constitui um exemplo. A instituição representa hoje a principal autoridade científica internacional no tema. Todavia, versões difamatórias circulam na internet, afirmando falsamente que o IPCC possui uma agenda política e ideológica, ou então que ela manipula dados para forjar um consenso.

Outro exemplo se encontra na proliferação de blogs cujo objetivo é provocar dúvidas no público por meio da desinformação. A prática inclui espalhar idéias e informações que contrariam as evidências científicas. 

Recrutados por esses grupos econômicos, ‘especialistas’ (muitas vezes não o são) elaboram conteúdos a partir de uma seleção parcial de dados e resultados de publicações, de modo a se questionar, aos olhos do público, o consenso científico.

Cientistas individuais podem ser financiados para defender os interesses desses grupos. Eles se tornam advogados de teses contrárias ao aquecimento global. Auto-intitulados céticos – são, na verdade, negacionistas -, tais interlocutores passam ao público, com o auxílio da cobertura dos veículos de comunicação, a idéia de uma divisão na comunidade científica. 

Alguns utilizam argumentos que já foram superados pela ciência. Eles podem chegar até o limite do charlatanismo, defendendo teses pseudocientíficas, como a inexistência do efeito estufa, ou sustentando que o CO2 não é um gás de efeito estufa.

A distinção entre ceticismo e negacionismo

Os ataques à ciência climática não constituem ceticismo. O artigo salientou que o ceticismo legítimo faz parte da ciência. Ele se manifesta em argumentos expostos publicamente no interior da comunidade científica, de forma clara e precisa, submetido a uma avaliação de mérito coletiva. A intenção é contribuir com o conhecimento, tendo como guia as evidências e observações disponíveis.

A campanha financiada por grupos econômicos tem por objetivo obscurecer, frente ao público, o conhecimento científico a respeito do aquecimento global. Não se trata de uma atitude de pesquisa ou busca pela verdade, mas negar uma verdade que contraria interesses políticos e econômicos. Por isso, são denominados de negacionistas. 

No caso do aquecimento global, é preciso distinguir uns dos outros. Nesse sentido, os pesquisadores recomendaram que os educadores aprofundem seus estudos da história da ciência climática para avaliar, de modo apropriado, o debate sobre aquecimento global, a formação do consenso científico e do movimento negacionista.

Mais informações: O Consenso Científico sobre Aquecimento Global Antropogênico: Considerações Históricas e Epistemológicas e Reflexões para o Ensino dessa Temática
Imagem: Flickr/ Ultrablunt – exemplo de material negacionista (em inglês) na internet

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