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Desvincular crescimento e energia: virtual ou real?

Um dos argumentos do debate sobre as mudanças climáticas diz respeito à possibilidade de desvincular o crescimento econômico do consumo de energia e das emissões de gases de efeito estufa. O argumento sustenta que as economias teriam capacidade de crescer, ao mesmo tempo em que consomem menos energia e liberam níveis cada vez menores de emissões.

A União Européia sugere que a região esteja atravessando um período de desvinculação entre crescimento econômico e consumo de energia e emissões de gases de efeito estufa. A Agência Ambiental Européia sugere que, entre 1990 e 2016, “o consumo interno bruto [de energia] da UE foi desacoplado do crescimento econômico: enquanto o PIB (em preços constantes de 2010) cresceu 1,7% ao ano, o consumo interno bruto diminuiu 1,7%”.

Mas esse resultado é mais virtual do que real, apontou estudo de cientistas de uma universidade da Suíça. Em grande parte, a queda registrada se deve à terceirização de atividades intensivas em energia para outros países fora da União Européia.

Segundo o estudo, a intensidade energética constitui o indicador utilizado para avaliar a taxa de dissociação entre o consumo de energia e o produção econômica, medida pelo produto interno bruto – PIB. A desvinculação entre um e outro pode ser relativa, quando a taxa de aumento do consumo de energia é menor do que a taxa de crescimento do PIB.

Ou pode ser absoluta, quando o consumo de energia permanece estável ou cai, enquanto que a economia cresce. Os dados da Agência Ambiental Européia sugeriam uma desvinculação relativa entre energia e crescimento econômico até aproximadamente 2005, e, a partir daí, uma desvinculação absoluta.

Contudo, os cientistas ressaltaram que a dissociação entre consumo de energia e crescimento da economia, em vez de real, pode ser virtual. Nesse último caso, a queda na intensidade de energia é somente aparente. Deve-se a uma alteração na estrutura econômica, elevando-se a dependência de importações.

Historicamente, os principais centros da indústria mundial, como a Europa, deslocaram as fábricas dos mercados domésticos para outros países em busca de redução de custos de produção e de mão-de-obra. A remodelação da manufatura global levou à desindustrialização de países desenvolvidos. Eles experimentaram um declínio no emprego, na produção industrial ou no comércio de bens manufaturados.

Por outro lado, cresceu a participação relativa do setor de serviços na economia dos países desenvolvidos. Menos intensivos em energia do que os setores primário e industrial, esse aumento da participação dos serviços provocou a estabilização, ou mesmo a redução, da intensidade energética nos países desenvolvidos.

A redução da intensidade de energia obtida dessa forma seria aparente, apontou o estudo, porque o consumo de energia não diminui, mas é transferido para o país onde se instalarão as fábricas. Essa energia acaba sendo importada na forma de bens ou serviços, sendo contabilizada, todavia, no país de fabricação.

Os cientistas decidiram investigar os fatores por trás da apregoada desvinculação do crescimento econômico e do consumo de energia na União Européia. Se os fatores seriam reais, pelo uso de novas tecnologias ou incremento da eficiência energética, ou virtual, devido à desindustrialização e terceirização.

Gráfico consumo e importação de energia na Europa
O gráfico traz o consumo final de energia na União Européia (linha azul) e a quantidade de energia importada (linha vermelha). Fonte: adaptado da figura da figura 2 do estudo.

Para tanto, foram decompostos os dados de consumo final de energia de todos os estados membros da União Européia. A abordagem incluiu as atividades econômicas, os domicílios e o transporte, combinando com dados sobre o PIB e o comércio exterior europeu.

Identificou-se que, desde 1990, a desindustrialização teve uma grande contribuição para a diminuição do consumo de energia na Europa. A contribuição foi tão significativa quanto aquela originada da implementação de medidas de eficiência energética.

Nesse sentido, a desvinculação do crescimento econômico e do consumo de energia na União Européia foi em grande medida virtual – no qual a energia passou a ser importada em forma de bens e serviços. Além disso, a contribuição marginal das ações de eficiência energética diminuiu nos últimos anos, indicando que nos próximos anos a dissociação poderá ser ainda mais virtual do que real.

Os resultados mostram a limitação de se desenvolver políticas climáticas isoladamente. Os cientistas alertaram para  importância de integrar as políticas energética, industrial e comercial com os objetivos e planos de mitigação do aquecimento global.

Mais informações: Moreau, V., Neves, C.A.D.O. and Vuille, F., 2019. Is decoupling a red herring? The role of structural effects and energy policies in EuropeEnergy Policy128, pp.243-252.
Imagem: Unsplash/ Sara Kurfeß

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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