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Decifrando a pequena era do gelo

Cientistas do Instituto Max Planck, da Alemanha, afirmam ter encontrado a explicação para um dos fenômenos climatológicos ainda não completamente compreendido pela ciência do clima. Trata-se da pequena era do gelo, um período de resfriamento ocorrido entre os séculos dezesseis e dezoito.

Ao contrário do que possa parecer, a pequena era do gelo não teve nada de glacial. A magnitude do resfriamento variou consideravelmente de uma região a outra, e também entre as diferentes estações. No começo do século dezessete, o continente europeu experimentou invernos que chegaram a ficar entre 2 e 3 graus Celsius mais frios do que a média do século vinte.

Por sua vez, os verões registraram variações entre condições normais, extremamente quentes ou extremamente frias. Eles chegaram a ficar no máximo 1 grau Celsius mais frios do que a média do século vinte. Dessa forma, a pequena era do gelo foi marcada pelo contraste entre os verões e os invernos, sendo que os últimos se apresentaram mais rigorosos em alguns anos. Considerando a temperatura média anual de todo o hemisfério norte, a pequena era do gelo representou uma diminuição em 0,5 graus Celsius em comparação com a média do período 1961 e 1990.

Os motivos para a ocorrência da pequena era do gelo são fonte de debate na ciência do clima. A primeira teoria associava o fenômeno à diminuição da atividade solar. Outra teoria indicava a atividade vulcânica, envolvendo padrões circulatório do oceano com a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico – AMOC, na sigla em inglês – ou a Oscilação do Atlântico Norte. Mas a segunda teoria não foi corroborada pelo avanço na pesquisa científica.

Faltava identificar um fator que explicasse as pequena era do gelo, respeitando suas características de resfriamento e de contraste sazonal. Através de um modelo computacional do clima, os pesquisadores alemães buscaram simular essas características da pequena era do gelo, comparando os resultados com reconstruções da temperatura média do continente europeu no período.

Temperatura media da pequena era do gelo.png
Comparação entre a simulação (linha vermelha) e a reconstrução (linha preta) da temperatura média no continente europeu nas estações do verão (gráfico de cima) e inverno (gráfico de baixo). O período da pequena era do gelo está destacado em cinza. A referência é a temperatura média do período entre 1901 e 1990. Fonte: gráfico retirado do estudo

Os resultados das simulações foram consistentes com as reconstruções das temperaturas (ver gráfico acima), reproduzindo a variabilidade climática do período. Segundo o estudo publicado pelos pesquisadores, o fator responsável pela pequena era do gelo foi uma mudança na circulação das correntes oceânicas no norte do atlântico entre a Islândia e a Escócia –  em inglês conhecida como Iceland-Scotland Ridge.

A mudança implicou em menor transferência de calor nesse trecho, fazendo com que a temperatura da superfície dos mares nórdicos e de Barents – ao norte da Noruega e da Rússia – ficassem menores, bem como a concentração de gelo marinho se expandisse, ao longo dos séculos dezesseis a dezoito. Com isso, a dinâmica da circulação atmosférica na Europa foi afetada, levando à amplificação do resfriamento na estação do inverno, mas sem efeitos significativos durante os verões.

O estudo ressalta o papel da atividade vulcânica para o início da mudança na circulação das correntes oceânicas. Os pesquisadores alertam para o potencial impacto do aquecimento global sobre os mesmos processos identificados no estudo.

Mais informações: Winter amplification of the European Little Ice Age cooling by the subpolar gyre
Imagem: Freeimages – mar de Barents

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