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Corte seletivo de madeira da Amazônia é insustentável

A extração seletiva de madeira da Amazônia pode não ser sustentável. Independentemente da duração do ciclo de corte e da intensidade de exploração, é improvável que as florestas exploradas seletivamente no presente sejam capazes de atender à demanda no longo prazo, apontou estudo de um time internacional de pesquisadores.

Atualmente, 20% da área total da floresta amazônica, correspondendo a 105 milhões de hectares, está sendo explorada para a produção de madeira. Em geral, esse tipo de exploração ocorre pelo corte seletivo de poucas espécies comercializáveis ​​em parcelas, que então permanecem intocadas para a regeneração da floresta.

Segundo o estudo, a exploração seletiva mantém a maior parte dos estoques de carbono e a biodiversidade da floresta. A utilização de técnicas de corte das árvores de menor impacto pode reduzir ainda mais os danos da exploração da madeira, fazendo com que a exploração seletiva seja identificada como uma ferramenta de conservação da Amazônia.

Diversos países – inclusive o Brasil – regulamentaram a atividade, incluindo critérios de intensidade máxima de extração, em termos de m³ de madeira por hectare, e de ciclos de corte, incluindo intervalos mínimos de tempo entre colheiras. Usualmente, o período de regeneração das parcelas varia entre 20 e 35 anos.

Evidências indicaram que os ciclos de regeneração podem ser muito curtos para sustentar os rendimentos das parcelas, caso não haja limites maiores nas intensidades de extração da madeira. O estudo ressaltou também que as mudanças climáticas, ao elevar a frequência e severidade de secas e incêndios florestais, resultará em aumento da mortalidade de árvores.

Ambos os fatores podem levar a uma queda dos estoques de madeira da Amazônia, mesmo quando os madeireiros cumpram os requisitos técnicos e a legislação. Para investigar em mais detalhes essa questão, os pesquisadores utilizaram um modelo computacional da dinâmica da floresta amazônica.

O modelo foi elaborado a partir do levantamento de dados de 3.500 hectares de parcelas da Amazônia. Desse total, 845 ha eram de 15 locais que haviam sido monitorados por até 30 anos depois de passarem por extração seletiva de madeira. Os dados permitiram aos pesquisadores identificar a recuperação de volume das espécies cortadas, levando-se em consideração a intensidade de exploração, a duração do ciclo de corte e a abundância de espécies retiradas.

A partir daí, utilizaram o modelo para explorar o potencial de regeneração em toda a Amazônia. Simularam o desempenho de longo prazo das áreas de exploração autorizadas no presente, projetando trajetórias dos estoques de madeira para diferentes cenários de intensidade e de duração dos ciclos de corte.

Mapas de Simulacao de recuperacao da floresta cortada
Os mapas apresentam cenários diferentes de regeneração da floresta à exploração seletiva da madeira. Da esquerda para a direita: (a) práticas atuais, menor (b) e maior (c) intensidade de corte, menor (d) e maior (e) duração do ciclo de corte . Fonte: figura 3 do estudo.

Para analisar os impactos das mudanças climáticas, introduziram no modelo os efeitos do aumento das taxas anuais de mortalidade e do aumento de perturbações, como introduzidos por incêndios.

As simulações do modelo sugeriram que, em parcelas com colheitas médias de 20m³ de madeira por hectare, não se verifica uma completa regeneração da floresta após um ciclo padrão de 30 anos. Mesmo em cenários de baixa intensidade de corte e períodos de regeneração mais longos, as projeções indicaram uma queda no estoque de madeira em longo prazo.

Cenários mais intensos – com maior retirada de madeira e prazos menores de regeneração das parcelas – foram considerados insustentáveis. Eles não permitiriam a recuperação do volume de madeira durante os períodos de regeneração.

Dessa forma, o estudo apontou que as florestas exploradas seletivamente não conseguirão atender às demandas de madeira a longo prazo. Os estoques de madeira presentes nas áreas exploradas deverão cair continuamente.  As projeções se mostraram ainda mais problemáticas, quando incluídos o desmatamento futuro, a degradação florestal e as mudanças climáticas.

Os pesquisadores recomendaram uma reavaliação urgente da gestão da exploração seletiva de madeira na Amazônia, como, por exemplo, combinar o manejo das florestas exploradas com a restauração de florestas secundárias e degradadas. Senão o declínio contínuo da produção será inevitável.

Mais informações: Camille Piponiot et al (2019). Can timber provision from Amazonian production forests be sustainable? Environ. Res. Lett. 14 064014
Imagem: CIFOR/ Marco Simola

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