Press "Enter" to skip to content

Conservadorismo do IPCC afeta a divulgação científica

Apesar das evidências reunidas pela ciência sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, permanece desafiador comunicar o tema para amplas audiências. E uma das dificuldades tem origem no próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês.

Isso porque a linguagem probabilística adotada nos relatórios do IPCC seria notavelmente conservadora, apontou estudo de pesquisadores de universidades da Austrália e da Espanha. Em vez de esclarecer o conhecimento científico sobre o aquecimento global, a linguagem do IPCC contribuiria para gerar confusão.

Segundo o estudo, as mudanças climáticas implicam em perdas na produção econômica mundial do presente e do futuro. Elas também representam uma ameaça sem precedentes à saúde humana e à biodiversidade. Apesar da relevância, o tema é alvo de desacordo, pois ocupa lugar estratégico na disputa entre ideologias políticas rivais, em especial nos países de língua inglesa.

Originalmente, os relatórios do IPCC possuem como público-alvo os governos nacionais e outras partes interessadas na elaboração de políticas, além de outros atores do sistema das Nações Unidas. Assim, os relatórios apresentam um estilo estritamente técnico.

Contudo, o trabalho do IPCC alcança uma audiência muito maior e diversificada, incluindo empresas, educadores, meios de comunicação, ou o público em geral. O caráter técnico do documento pode comprometer a leitura e o entendimento. E um dos pontos mais sensíveis é a comunicação da incerteza estatística e científica.

A ciência climática e os relatórios do IPCC aprimoraram uma linguagem quantitativa para classificar a incerteza. Essa necessidade surgiu do fato de que a incerteza é parte inerente do sistema climático, composto por complexos componentes, processos e dinâmicas. Além de serem imperfeitamente compreendidos, eles se encontram em continua mudança.

Quando trata dos diversos componentes, processos e dinâmicas estudados pela comunidade científica, o IPCC apresenta para cada caso uma análise transparente e formal da incerteza. Os autores levam em consideração a probabilidade e o grau de confiança de um processo ou dinâmica específico, classificando em uma escala que vai de muito baixa à muito alta probabilidade, e de muito baixa a muito alta confiança.

Um exemplo vem da projeção de quanto a temperatura média global subiria caso as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono – CO2 – dobrassem em relação aos níveis pré-industriais. O último relatório do IPCC indica que o aumento provável seria entre 1,5°C a 4,5°C (alta confiança).

Um aumento inferior a 1°C seria extremamente improvável (alta confiança), enquanto que um aumento superior a 6°C, muito improvável (confiança média). A variação nas projeções tem origem em inúmeros aspectos, como o método adotado ou a resposta e alteração de processos e dinâmicas do sistema climático à medida que ocorre o aquecimento.

A forma de classificar a incerteza havia sido apontada anteriormente como um possível obstáculo da comunicação da ciência climática. Ela poderia contribuir para a inação política, retardando a adoção de medidas para limitar o aquecimento global e para adaptação às mudanças climáticas.

Os pesquisadores analisaram o último relatório do IPCC, a fim de explorar se o tratamento da incerteza afetaria a comunicação. Para tanto, eles levantaram todas as classificações de incerteza presente no relatório do grupo de trabalho 1.

A linguagem probabilística do IPCC se mostrou notavelmente conservadora, registrando uma predominância de qualificadores de confiança entre baixa a intermediária. Nesse sentido, o conservadorismo do IPCC contrasta com a linguagem da comunidade científica.

O excesso de conservadorismo do IPCC resultaria, em primeiro lugar, das próprias diretrizes da instituição para a análise da incerteza. Aplicar a diretriz em processos temporal ou espacialmente ainda pouco estudados, ou então que apresentem baixa probabilidade e impactos adversos muito significativos, poderia distorcer o entendimento desses processos e suas consequências.

A complexidade do sistema climático leva à uma profusão de pesquisas, gerando-se um grande número de dados e descrições de múltiplos processos. O trabalho do IPCC inclui revisar e sintetizar, de forma homogênea, milhares de artigos da literatura científica.

Muitas vezes, fenômenos únicos ganham explicações plausíveis mas distintas. Afunilar toda essa diversidade em um único documento favorece a classificação de incertezas.

O último fator constitui a pressão exercida por grupos negacionistas. De acordo com o estudo, esses grupos utilizam as incertezas para desencorajar o endosso do público à políticas contra uma série de problemas sociais e ambientais. Geralmente, em razão do interesse financeiro.

Os pesquisadores recomendaram o aprimoramento das diretrizes do IPCC. Ao mesmo tempo, os cientistas devem se esforçar na divulgação pública do estado do conhecimento sobre as mudanças climáticas. Limitar o aquecimento global, ou se preparar para seus impactos, dependerá de ações na esfera política.

Mais informações: Herrando-Pérez, S., Bradshaw, C. J., Lewandowsky, S., & Vieites, D. R. (2019). Statistical Language Backs Conservatism in Climate-Change AssessmentsBioScience69(3), 209-219.
Imagem: Flickr/ Takver

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
%d blogueiros gostam disto: