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Consertar o que não tem conserto

A geoengenharia irá ganhar cada vez mais importância como uma resposta às mudanças climáticas, afirma artigo de pesquisadores dos Estados Unidos. Ela se afirmará como estratégia de alta tecnologia e favorável ao mercado. A mitigação do aquecimento global pela redução substancial de emissões, por sua vez, além de mais dispendiosas, demandam alterações sociais e estruturais que entram em conflito com a atual ordem social.

A geoengenharia pode ser definida como a intervenção intencional e em larga escala no sistema climático, com o objetivo de minimizar o aquecimento global. Segundo o artigo, em geral a abordagem da ciência sobre as alternativas de geoengenharia se limitam a aspectos técnicos e a tratam como soluções para as mudanças climáticas.

Os pesquisadores buscaram elucidar as condições sociais e históricas que deram origem à agenda de geoengenharia, identificando as formas de racionalidade usadas para a legitimar. O interesse foi avaliar, através de uma revisão da literatura sobre o tema, a relação entre a estrutura social e os padrões de pensamento que justificam a pesquisa e a implantação da geoengenharia. O tipo de método analisado foi a injeção de aerossol na estratosfera.

Ações de geoengenharia trazem inúmeros riscos. Ainda não está claro como os fenômenos meteorológicos podem ser afetados, em especial a precipitação, colocando-se em risco os sistemas ecológicos e agrícolas. A adoção dessas medidas se daria em um cenário de contínua emissão de gases de efeito estufa. Caso elas falhassem ou fossem interrompidas, a temperatura média global abruptamente subiria devido ao acúmulo dos gases na atmosfera. As consequências seriam extremamente graves.

Além disso, os pesquisadores ressaltam que muito do que é atualmente compreendido sobre a geoengenharia se baseia em modelos climáticos. Muitos riscos só se tornariam conhecidos após a implantação das medidas. Dessa forma, a incerteza e a ignorância constituem fatores inerentes à ciência da geoengenharia, fazendo dela uma alternativamente extremamente arriscada. O que, então, justificaria a agenda de pesquisa da geoengenharia?

Economias capitalistas se caracterizam pela constante expansão, incrementando sem cessar a energia e recursos consumidos. O artigo afirma que o problema das mudanças climáticas se liga ao crescimento econômico, uma vez que este impulsiona as emissões de gases de efeito estufa. O uso de combustíveis fósseis alimenta o crescimento do Produto Interno Bruto dos países.

Soluções para lidar com as mudanças climáticas incluem a criação de mercados de carbono, o aumento da eficiência energética ou a expansão das fontes de energia renováveis. No entanto, todas essas soluções demonstraram ter sucesso limitado, ao mesmo tempo em que trazem impactos não desejados. Por sua vez, a redução das emissões impactaria o crescimento econômico.

Frente a esse contexto, o argumento favorável à geoengenharia ganha validade. Ela permitiria manter intocado o vínculo entre expansão econômica e emissões, uma vez que diminuiria – ao menos idealmente – os efeitos negativos do aquecimento global.

Outra forma de racionalidade usada na legitimação, de caráter econômico, sustenta que a geoengenharia consiste na melhor opção em termos de custo-benefício. Tal argumento usualmente desconsidera os possíveis efeitos colaterais. Ela também é considerada como uma oportunidade de negócios, e empresas privadas investem no desenvolvimento de tecnologias.

No meio científico, os pesquisadores identificaram uma abordagem da geoengenharia centrada em noções de domínio sobre um universo mecânico, uma forma de racionalidade instrumental. A mesma perspectiva é partilhada por aqueles responsáveis pela promoção e financiamento da área. Eles crêem que as sociedades irão consertar o aquecimento global por meio da tecnologia.

A forma de apresentação da geoengenharia nos meios de comunicação também reproduz a racionalidade instrumental. O planeta é percebido como uma máquina, enquanto a geoengenharia constituiria uma ferramenta útil para consertar manipular a máquina. As metáforas utilizadas retratam que um pensamento reducionista tem sido aplicado a um sistema altamente complexo e imprevisível.

Nesse sentido, a geoengenharia se alia às prioridades econômicas e seus atores. Evita também o enfrentamento das mudanças climáticas por meio de alterações sociais e estruturais que poderiam interferir nessas prioridades. Reduzir as emissões constitui uma estratégia mais cara, com desdobramentos sociais e econômicos muito mais amplos.

O fortalecimento da agenda da geoengenharia seria incompreensível fora desse contexto, afirmam os pesquisadores. Não faria sentido injetar milhões de toneladas de aerossóis de sulfato na estratosfera em uma sociedade que fosse capaz de eliminar as emissões de gases de efeito estufa.

O problema é que a racionalidade por trás da geoengenharia toma como princípio que a natureza é formada por um conjunto de recursos passivos, passíveis de uma total manipulação. 

Mais informações: A Critical Examination of Geoengineering: Economic and Technological Rationality in Social Context
Imagem: Unsplash/ Allan Nygren

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