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Conflitos de uso da água tendem a aumentar no futuro

Boa parte das maiores cidades do mundo poderão enfrentar escassez de água no futuro devido ao aquecimento global, concluiu estudo de cientistas alemães e dos Estados Unidos. Há um grande potencial de conflito entre as demandas para o abastecimento urbano e para a agricultura.

De acordo com o estudo, projeta-se que a população urbana mundial, atualmente de 3,9 bilhões de pessoas, crescerá entre 60% e 92% até o final do século. Até 2030, estima-se um aumento em quase dois terços, com aproximadamente 2 bilhões adicionais de residentes urbanos.

Além do aumento da população, a riqueza e a implantação de infraestrutura fez com que o consumo de água para uso doméstico quase quadruplicasse nos últimos 60 anos. A tendência deve continuar, alertam os cientistas. Foi previsto um crescimento da demanda em 80% até 2030, e entre 50% a 250% até 2050. Uma das consequência do crescimento é a escassez e a sobrecapacidade das fontes subterrâneas de água.

As mudanças climáticas que o aquecimento global está provocando constituem um desafio adicional à gestão da água dos centros urbanos. Entre as possíveis interferências das mudanças climáticas nos recursos hídricos, o estudo cita como exemplos a alteração nos padrões de chuva ou o aumento da evaporação.

Os cientistas analisaram disponibilidade hídrica futura, em 2050, de 482 cidades mundiais, nas quais vivem hoje cerca de 736 milhões de pessoas. Para tanto, consideraram um cenário de médias emissões de gases de efeito estufa e desenvolvimento socioeconômico seguindo as tendências atuais. O impacto das mudanças climáticas foi definido a partir de um conjunto de cinco modelos climáticos distintos.

Os resultados do estudo indicaram quase 28% das cidades afetadas por déficit de água. A quantidade subiria para aproximadamente 46% em situações nas quais a captação fosse restringida para se manter a qualidade ambiental dos cursos d’água. A pressão sobre os aquíferos também subiria significativamente.

Ao mesmo tempo, em 41% de todas as bacias hidrográficas, os usos para abastecimento urbano entrariam em conflito com os usos para a agricultura. Caso o abastecimento urbano fosse prioritário, o estudo calculou que cerca de 14.000 km2 de área irrigada enfrentariam o risco de déficit hídrico em 2050. Em situações de restrição ao uso para a preservação ambiental dos cursos d’água, o risco de déficit subiria dramaticamente, alcançando 180.000 km2 de área irrigada – ou aproximadamente 6% da área irrigada mundialmente hoje.

 

Gráfico das 20 cidades com os maiores déficits de água projetados para 2050. A barra cinza mostra o déficit caso o abastecimento urbano seja prioritário. A barra listrada mostra o déficit adicional, caso outros usos tenham prioridade em relação ao abastecimento urbano. Fonte: figura 5 do estudo.

A cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, foi a primeira entre as 20 cidades com o maior déficit hídrico projetado para 2050. Em segundo lugar ficou Jaipur, na Índia. Duas cidades brasileiras entraram na lista dos 20 maiores déficits projetados: Porto Alegre (90 lugar) e Salvador (120 lugar).

Pode-se minimizar o estresse hídrico futuro através da melhoria na eficiência do uso da água pelo setor agrícola. Medidas como a irrigação por aspersão ou gotejamento ou a eliminação de vazamentos contribuiriam para reduzir o desperdício. Mas os cientistas ressaltam que no futuro o conflito entre as demandas das cidades e do campo tende a se acentuar, com o potencial de afetar milhões de pessoas, distintos setores da economia, e a qualidade dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Water competition between cities and agriculture driven by climate change and urban growth
Imagem: Camila Domingues/Palácio Piratini – Flickr

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