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Chove chuva, não chove chuva

As mudanças observadas no padrão médio das chuvas é maior do que aquelas ligadas às chuvas extremas, e podem ser mais significativas do que o esperado, diz estudo de pesquisadores dos Estados Unidos. Em larga medida, a ciência do clima concentrou os estudos em fenômenos extremos, o que pode ter subestimado os impactos das mudanças climáticas sobre a precipitação.

Compreender e explicar as mudanças nos padrões das chuvas médias é crucial para a gestão de um conjunto de sistemas e atividades dependentes do ciclo hidrológico. Ao mesmo tempo, serve para aprimorar as projeções dos impactos das mudanças climáticas. O estudo cita como exemplo a atividade agrícola, cujos rendimentos ou requisitos de irrigação são afetados pela precipitação diária e sua duração.

Mesmo que o volume anual permaneça o mesmo, a forma de distribuição das chuvas determinará o tipo de manejo agrícola mais adequado. Eventos de precipitação menos intensos, porém mais longos e frequentes, demandam do produtor rural um manejo diferente daquele ligado a eventos mais curtos, mais intensos e infrequentes.

Outro exemplo diz respeito à operação e manutenção de usinas hidrelétricas ou outros sistemas vinculados aos recursos hídricos. As variações nas chuvas moderadas podem chegar ao ponto de interferir em práticas operativas ou, no caso de uma obra de infraestrutura, na elaboração do projeto estrutural. Os cientistas também lembram que os ecossistemas aquáticos são particularmente vulneráveis ​​à mudanças no padrão médio das chuvas, que podem modificar o regime natural do fluxo da água.

O estudo se baseou em séries de dados de mais de 3.000 estações meteorológicas distribuídas pela América do Norte. Buscou identificar mudanças em padrões como a fração de dias chuvosos no ano, a quantidade de dias consecutivos com chuva ou de seca e a precipitação total.

Os resultados questionam duas suposições geralmente adotadas na ciência climática. A primeira delas propõe que o aquecimento global tende a fazer as áreas úmidas ficarem mais úmidas, e as áreas secas, ainda mais secas. A segunda suposição prevê que os eventos de chuva se tornarão mais intensos. Só que os dados mostraram que a alteração, seja positiva ou negativa, da fração de dias chuvosos não leva necessariamente ao aumento ou diminuição da quantidade de chuva.

As séries de dados analisados incluíram situações de maior diversidade. Por exemplo, mesmo quando foi detectado um crescimento da fração de dias chuvosos no ano e da quantidade média de dias consecutivos com chuva, estações registraram uma redução da média diária de chuva. Em algumas situações, alterações na sazonalidade podem interferir em ecossistemas que dependem de padrões específicos de precipitação.

Outra constatação relevante foi a presença de mudanças em padrões intra-anuais, ligados às estações do ano. Uma análise da escala sazonal foi capaz de identificar tendências que, no caso de uma análise da escala anual, poderia passar despercebida. 

Nas estações climatológicas estudadas, os pesquisadores identificaram que foi mais comum a presença de alterações no padrão de chuvas médias do que em eventos extremos. Também observaram que o clima local exerce forte controle sobre as variáveis ligadas à precipitação, bem como as atividades humanas, especialmente o uso e ocupação do solo.

Essas observações indicam que, quanto a tendências de longo prazo,a cobertura vegetal e as características topográficas do relevo podem ter um papel mais relevante sobre as precipitações do que o assumido anteriormente. Ao mesmo tempo, expõem a limitação de análises da precipitação em escalas geográficas muito gerais, dada a influência dos climas locais e microclimas.

Com isso, a projeção de tendências de longo prazo nos padrões de chuva assume maior complexidade, conclui o estudo. É preciso considerar as dinâmicas atmosféricas com as condições do clima local e as influências de fatores humanos. Finalmente, dada a sua importância, os pesquisadores recomendam a inclusão da variabilidade das chuvas médias como um dos elementos de análise de modelos computacionais do clima.

Mais informações: Patterns of change in high frequency precipitation variability over North America
Imagem: Freeimages

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