Press "Enter" to skip to content

Café? Tem mas pode acabar

O aquecimento global pode reduzir as áreas de cultivo de café na América Latina entre 73 e 88% até 2050. Essa é a principal conclusão de estudo sobre os futuros impactos das mudanças climáticas no cultivo do café, elaborado por um time internacional de cientistas.

Avaliações anteriores sugeriam uma redução de até 50% na área global adequada para o cultivo do café até meados deste século. Só que o impacto direto das mudanças climáticas variaria, podendo ser mitigado ou acentuado, de acordo com os efeitos sobre os animais polinizadores. E nenhum estudo havia explorado a relação entre as mudanças climáticas, a polinização e o cultivo do café.

Segundo o estudo, o cultivo do café possui uma profunda dependência da polinização. Animais polinizadores, em especial as abelhas, influenciam o rendimento do café, a quantidade de frutos e o peso da baga. Espécies de abelhas nativas são polinizadoras mais eficazes do que espécies exógenas. A proximidade de florestas melhora a polinização do café, porque a vegetação suporta as populações de polinizadores ao longo do ano. Também porque o forrageamento de abelhas nativas diminui à medida em que se afastam das matas onde fazem a colméia.

As mudanças climáticas podem afetar a distribuição geográfica dos animais polinizadores, afirmam os cientistas. Com isso, tendem a impactar a produção de café de duas maneiras. Diretamente, através do aumento da temperatura e da alteração de chuvas ou eventos extremos. E indiretamente, por meio da alteração no processo de polinização. Só que, no segundo caso, não existia uma avaliação se os efeitos seriam positivos ou negativos.

O estudo combinou a análise simultânea das alterações climáticas sobre a produção de café do tipo arábica e sobre trinta e nove diferentes espécies de abelhas polinizadoras. O foco foi na América Latina, região que concentra mais de 80% da produção mundial de café arábica. Uma das características do plantio de café na América Latina é quase 80% da produção vem de pequenas fazendas, com menos de 4 hectares.

Por meio de um modelo computacional, foram analisadas 19 variáveis climáticas, considerando-se um cenário de médias e outro de altas emissões. Para os dois cenários, foi simulado o impacto das mudanças nas variáveis climáticas sobre o café e as abelhas até o ano de 2050. A partir das projeções, os cientistas mapearam todo o continente, identificando onde as mudanças climáticas serão favoráveis ou desfavoráveis tanto ao café quanto às abelhas. Também foram mapeadas áreas onde um dos dois é favorecido, enquanto o outro não.

Mapa com a mudança na população de abelhas polinizadoras em cenário de médias emissões, em 2050. Fonte: Figura 2 do estudo

Os resultados do estudo confirmam avaliações anteriores, indicando grandes declínios na extensão de áreas adequadas para a produção de café de alta qualidade devido ao aumento das temperaturas. Em geral, os declínios no cultivo do café foram acompanhados de declínios na diversidade de abelhas. No entanto, a distribuição geográfica das áreas que continuarão adequadas ao cultivo do café abrange áreas com maior diversidade de abelhas. Assim, os serviços de polinização provavelmente permanecerão disponíveis nesses locais.

A redução das áreas apropriadas para o café aponta para a necessidade de medidas de adaptação às mudanças climáticas. Os cientistas ressaltam que a diminuição da vulnerabilidade do setor cafeeiro envolve a adoção de práticas agrícolas favoráveis aos animais polinizadores e ao gerenciamento de café. Entre eles, a conservação de remanescentes florestais.

Mais informações: Coupling of pollination services and coffee suitability under climate change
Imagem: Pixabay

Comments are closed.

%d blogueiros gostam disto: