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As bacias hidrográficas do gelo e a perda de massa da calota polar da Groenlândia

Os modelos climáticos não representam adequadamente o processo de derretimento da calota polar da Groenlândia, apontou estudo de um time internacional de cientistas. Em um contexto de aquecimento global, não basta mais estudar a calota polar somente do ponto de vista da glaciologia ou da meteorologia. É preciso, afirmam os cientistas, utilizar também as abordagens da hidrologia.

Atualmente, a maior perda de gelo registrada em todo o planeta vem da calota polar da Groenlândia. Segundo os cientistas, o derretimento das geleiras devido ao aumento das temperaturas na região tem contribuído com pelo menos metade do aumento do nível do mar.

Durante o verão, ao derreter o gelo, formam-se pequenos cursos d’água e lagos que escoam pela superfície das geleiras, constituindo em conjunto pequenas bacias hidrográficas. Em geral, as bacias drenam pela superfície até encontrar um sumidouro, pelo qual a água escorre pelo interior da geleira até a sua base.

Na foto acima, de 15 de junho de 2016, obtida através de satélite da NASA, é possível ver rio e lagos formados na superfície da calota polar, em uma região do sudoeste da Groenlândia. Fonte: NASA Earth Observatory/ Jesse Allen

O estudo adotou a perspectiva da hidrologia. O objetivo foi mapear a bacia hidrográfica de 27 quilômetros quadrados, formada em uma localização específica da Groenlândia. Por meio de satélites, drones e sensores, o estudo mapeou a bacia hidrográfica. Dados sobre a vazão dos corpos d’água foram coletados, de modo a se calcular a quantidade de água que escoa na superfície da geleira.

Os resultados mostraram que nem toda a água proveniente do derretimento do gelo escoava pela bacia hidrográfica até o sumidouro. Comparando com as estimativas de cinco diferentes modelos climáticos, verificou-se que o escoamento de água era entre 21% a 58% menor. Havia algum processo que os modelos não representavam adequadamente.

Os cientistas então avaliaram em detalhes os dados dos modelos climáticos com os dados obtidos em campo. Eles confirmaram que a taxa de derretimento do gelo simulada pelos modelos estava de acordo com os registros das estações meteorológicos. A discrepância residia na forma com que os modelos representavam o fluxo e escoamento superficial de água ao longo da bacia hidrográfica até o sumidouro.

O estudo confirmou que as bacias hidrográficas formadas na superfície da calota polar apresentam características semelhantes às bacias hidrográficas terrestres. Nestas, parte da água das chuvas que alimentam os cursos d’água não escoa pela superfície do terreno, mas penetra no solo, onde fica armazenada. O mesmo ocorria na geleira, e o escoamento da água era mais complexo do que supunham os modelos.

O estudo concluiu que parte da água derretida penetrava em áreas da superfície nas quais o gelo era poroso e de menor densidade. Dessa forma, apesar da mesma taxa de derretimento, as vazões dos cursos d’água eram menores do que o calculado pelos modelos climáticos, já que uma parte ficava retida no próprio gelo. Com o fim do verão, a água retida voltava a congelar.

Os cientistas irão continuar o estudo das áreas de gelo poroso, que podem chegar a 3 metros de profundidade. Assim, será possível aprimorar a forma como os modelos climáticos representam a perda de massa da calota polar da Groenlândia.

Fonte: UCLA
Imagem: Unsplash/ Jim Frenette

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