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Avaliação da pegada de carbono da soja brasileira

Plantios de soja no Brasil apresentam maior pegada de carbono quando localizadas em regiões associadas ao desmatamento, como o estado do Pará. E a União Européia constitui o maior importador de soja brasileira com alta pegada de carbono, identificou estudo de pesquisadores de universidade europeias.

Um dos setores mais globalizados da economia mundial é o de alimentos e rações. De acordo com o estudo, o comércio internacional de produtos agrícolas mais que dobrou entre 2000 e 2015, saltando de US$ 600 bilhões para mais de US$ 1,300 trilhões.

O setor está associado a impactos ambientais e sociais. Um deles é a emissão de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. No entanto, levantar os impactos em detalhe traz grandes desafios, dada a grande heterogeneidade nas cadeias de suprimentos e a diversidade de condições ambientais e tipos de impactos.

Utilizada principalmente na alimentação animal, a soja é o principal produto do comércio agrícola internacional. Junto com os Estados Unidos, o Brasil ocupa a liderança na produção e exportação mundial da soja. O país consiste em um bom exemplo de impactos ambientais, uma vez que a soja está direta e indiretamente ligada ao desmatamento.

Como consequência, o estudo afirmou que as emissões de gases de efeito estufa pela produção de soja brasileira se devem, em grande medida, ao desmatamento. O Cerrado se destaca pelo nível elevado de desmatamento, em especial a região do MATOPIBA – entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Utilizando o Brasil como estudo de caso, os pesquisadores buscaram avaliar as emissões da cadeia de suprimentos global da soja. Eles utilizaram a metodologia da análise do ciclo de vida, incluindo desde o plantio até o consumo. Também foi realizado um levantamento detalhado do fluxo físico da soja – o transporte da produção dos municípios produtores até os países importadores.

Adotando uma alta resolução espacial, o estudo pode detectar a variação nacional nas práticas de gestão dos cultivos e uso e ocupação dos solos, nos corredores de transporte doméstico, bem como no processamento industrial. Dessa forma, quantificou as emissões de gases de efeito estufa de aproximadamente 90.000 configurações separadas da cadeia da soja brasileira, entre 2010 e 2015.

Os cálculos das emissões de dióxido de carbono equivalente – CO2eq – incorporados nas exportações de soja brasileira foram elaborados por município. Aqueles da fronteira agrícola dos biomas Cerrado e Amazônia apresentaram os maiores valores. Em especial, aqueles da região do MATOPIBA e no estado do Pará. Em 60% dos casos, o indicador de CO2eq dos municípios da região esteve entre os mais altos registrados, com destaque para aqueles nos estados do Maranhão e do Tocantins.

Os resultados do estudo apontaram que a soja com a menor pegada do carbono fica concentrada nos estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul. Em 92% dos municípios produtores investigados, a quantidade de CO2eq da soja apresentou valores menos expressivos.

Gráfico pegada de carbono de países importadores da soja brasileira
Quantidade total de soja e derivados adquirida pelos principais países importadores (a) e pegada de carbono (b), considerando a quantidade de CO2eq. por tonelada de soja, no período 2010-2015. Fonte: figura 4 do estudo.

Entre os motivos para a diferença entre as diversas áreas produtoras do país, o estudo citou a menor taxa de desmatamento do Sul e Sudeste – o desmatamento em larga escala ocorreu há várias décadas atrás. Além disso, as áreas produtoras se encontram relativamente mais próximas dos portos de exportação, reduzindo-se as emissões ligadas ao transporte.

Entre os biomas brasileiros, a soja plantada no Cerrado apresentou as maiores emissões absolutas, de 126,60 milhões de toneladas. Em seguida veio a soja do bioma Mata Atlântica, com 35,55 milhões de toneladas, e da Amazônia, com 34,73 milhões de toneladas. Segundo o estudo, os resultados apontam para a maior fragilidade da regulamentação de conservação do Cerrado, em comparação com a da Amazônia.

A importação de soja de municípios da região de MATOPIBA implicaria em até 6 vezes mais emissões por unidade do que a média brasileira, de 0,69 toneladas de CO2eq por tonelada de soja. A alteração da cobertura vegetal foi o principal fator por tás das emissões da soja, representando 36% do total de 2010 a 2015.

A quantidade de emissões das exportações brasileiras de soja no período analisado somou 223,46 milhões de toneladas de CO2equ. Uma vez que a China foi o principal mercado importador da soja brasileira, ela respondeu por 51% da pegada de carbono total.

No entanto, por unidade de produto, a União Européia mostrou uma pegada de carbono cerca de 14% superior à chinesa. Sua pegada de carbono foi de 0,77 toneladas de CO2eq por tonelada de soja importada. O valor refletiu o fato de que os países europeus tendem a importar soja do norte do Brasil.

Em um mundo de comércio globalizado, os pesquisadores sugeriram que sua abordagem poderia contribuir na avaliação de desempenho ambiental de cadeias de suprimentos. E apontar para a responsabilidade de países e blocos importadores, como a União Européia, pelos impactos provocados pelo setor agrícola mundial.

Mais informações: Escobar, N., Tizado, E.J., zu Ermgassen, E.K., Löfgren, P., Börner, J. and Godar, J., 2020. Spatially-explicit footprints of agricultural commodities: Mapping carbon emissions embodied in Brazil’s soy exports. Global Environmental Change62, p.102067.
Imagem: figura 3 do estudo – pegada de carbono dos estados exportadores de soja (a) e por bioma brasileiro (b) no período 2010-2015. A unidade é CO2eq por tonelada de soja.

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