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Até os russos se adaptam!

Uma virada radical no ponto de vista da Rússia sobre as mudanças climáticas está acontecendo. Começa a haver reconhecimento pelos políticos das alterações climáticas que estão acontecendo, como a duplicação na frequência de eventos extremos nos últimos 25 anos, ou o aumento das temperaturas no Ártico.

Assim como se observa em alguns países anglo-saxões, na Rússia alguns setores trabalham para desacreditar a ciência do clima. Pessoas influentes rotineiramente questionavam a realidade do fenômeno das mudanças climáticas. Alguns jornais russos até mesmo sustentam teorias conspiratórias estapafúrdias, afirmando que a idéia do aquecimento global é uma arma dos Estados Unidos contra a Rússia, ou uma armação de países estrangeiros destinada à prejudicar as exportações russas de energia.

Além disso, a questão das mudanças climáticas tinha baixa prioridade para o governo federal. Um dos motivos era a comodidade do país em termos das metas de emissão de gases de efeito estufa. Outro motivo era político. Dona de uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, e com boa parte da economia baseada na exportação de energia, havia pouco interesse do governo em avançar na agenda das mudanças climáticas.

Mas esse ponto de vista está mudando justamente por causa dos últimos eventos climáticos. Em maio deste ano, uma forte tempestade se abateu sobre Moscou, causando estragos da ordem de US$ 3,5 bilhões na região metropolitana. Abrigando cerca de 20 milhões de pessoas, espera-se que a região sofra cada vez com os fenômenos climáticos. Estima-se que os danos econômicos podem chegar a US$ 4,3 bilhões por ano até 2025, o que corresponde aproximadamente aos gastos atuais com os danos causados em todo o país.

No último verão, incêndios florestais destruíram 4,6 milhões de hectares de vegetação da Sibéria e inundações devastaram o extremo oriente da Rússia. A distribuição geográfica de doenças infecciosas também foi alterada, e há quem atribua parte da responsabilidade às alterações no padrão climático. Transmitido por mosquitos, o vírus do Nilo Ocidental foi registrado no sul do país, enquanto que no norte estão se espalhando a encefalite transmitida por carrapatos e a doença de Lyme.

Retratando o novo ponto de vista, a cidade de Moscou lançou em agosto o plano de adaptação climática da região metropolitana. O plano avalia os setores mais vulneráveis, lista e calcula o custo de medidas adaptativas. Entre as projeções de mudança, por exemplo, inclui-se o aumento na frequência e intensidade de ondas de calor. Eventos como o de 2010, no qual 44 dias de alta temperaturas, associados à poluição atmosférica, levou à quase 11 mil mortes, especialmente de pessoas idosas.

Contudo, o progresso na forma de abordar as mudanças climáticas ainda é acompanhado de pouca vontade de controlar as emissões de carbono. A Rússia deverá ratificar o acordo climático de Paris somente em 2019 ou 2020. É um dos poucos países industrializados que não precisará realizar cortes. A meta russa é reduzir as emissões até 2030 em 30% abaixo dos níveis de 1990. Só que o ano de 1990 foi anterior ao fim da União Soviético, cujo colapso econômico reduziu dramaticamente as emissões dos países do bloco. Hoje, as emissões da Rússia se encontram 30% abaixo dos níveis em 1990.

Também exercem influência sobre o governo as indústrias intensivas em carbono, ligadas aos setores de carvão, aço e metais. Em vez de corte de emissões, esse grupo encampa a proposta de direcionar os esforços no incremento da eficiência energética. E parece que o governo federal irá acolher essa proposta, concentrando as medidas de mitigação na eficiência até 2030.

Fonte: Russia wants to protect itself from climate change—without reducing carbon emissions, Science/Angelina Davydova
Imagem: Freeimages

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