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As águas antigas do Oceano Pacífico

Camadas de águas profundas do Oceano Pacífico ainda estão se ajustando a episódios regionais de resfriamento ocorridos no passado, sugeriu estudo de cientistas de universidades dos Estados Unidos.

As águas dos oceanos estão em constante circulação. Um dos processos é conhecido como circulação termohalina e tem origem nas diferenças de densidade da água das camadas superior e profunda do oceano.

A água da camada superficial do oceano, em pontos do planeta de alta latitude – próximos dos pólos -, perde calor e se torna mais salina. Com isso, a água fica mais densa e submerge para a camada mais profunda do oceano.

O movimento dá origem à circulação global da água profunda do oceano. Como a velocidade de deslocamento da água profunda é pequena, a massa de água submersa pode levar centenas a milhares de anos até completar a circulação e retornar à superfície.

As águas da superfície estão em contato e interagem com a atmosfera. Elas absorvem energia da atmosfera ou perdem energia para a atmosfera (na forma de calor), bem como trocam com ela gases como o oxigênio e o dióxido de carbono – CO2.

De acordo com o estudo, no processo de circulação global do oceano, as trocas de energia entre as águas superficiais e a atmosfera irão influenciar a temperatura das águas profundas. No caso do Oceano Pacífico,  estima-se que pode levar mais de 1.000 anos para que a camada profunda expresse a influência das variações da temperatura na superfície.

No estudo, os cientistas buscaram explorar, através de um modelo computacional, o processo no qual as águas do oceano interagem com a atmosfera, submergem e depois se deslocam para as camadas profundas dos oceanos.

Eles tentaram compreender melhor a forma e como o processo de circulação oceânica afeta as propriedades do interior de diferentes bacias oceânicas – em particular, do Atlântico e do Pacífico. E também o tempo que leva para isso acontecer.

A análise foi complementada com uma comparação entre dois levantamentos da temperatura das águas. O primeiro, realizado pela expedição científica do HMS Challenger, na década de 1870, e o segundo de recentes monitoramentos hidrográficos.

Eventos regionais de resfriamento das condições climáticas teriam sido observados na Groenlândia entre os anos 1400 e 1600 e também no século de 1800. Condições climáticas mais frias no mar ao redor da Antártica teriam ocorrido por volta do século de 1500.

Mapa temperatura das águas do oceano pacífico e atlântico
Mapa com a alteração na temperatura das águas profundas dos Oceanos Pacífico e Atlântico – de acordo com as simulações (cores de fundo) e as observações (quadrados coloridos). A cor azul indica resfriamento e a cor vermelha, aquecimento. Fonte: figura 2 do estudo.

Em ambas as regiões ocorre a formação de águas densas, que submergem para camadas profundas e levam à formação das correntes oceânicas – uma parte corre pelo Atlântico e outra pelo Pacífico.

Os resultados do modelo indicaram que os efeitos desses eventos regionais de resfriamento ainda se fazem sentir camada profunda do Oceano Pacífico, entre 1.600 m e 4.000 m. Ela estaria experimentando uma redução da temperatura, à medida que as correntes de água formadas durantes os eventos de resfriamento ainda se movimentam e alcançam o Pacífico.

A comparação entre os levantamentos da temperatura realizados na década de 1870 e as observações modernas indicaram um pequeno resfriamento na camada profunda do oceano Pacífico. Especialmente em profundidades entre 2.000 m e 4.000 m.

No caso do Atlântico, a resposta das águas profundas às variações climatológicas da superfície são mais rápidas. Essas águas já sentem os efeitos do atual aquecimento global e registraram um aumento das temperaturas.

O mesmo se verificou com as águas superficiais tanto do Atlântico quanto do Pacífico.

Ao considerar a diminuição da temperatura na camada profunda do Pacífico, os cientistas refizeram o cálculo da quantidade de calor absorvida pelos oceanos com o aquecimento global. As estimativas atuais, segundo eles, estariam superestimando a quantidade de calor absorvido em cerca de 30%.

Segundo o estudo, as diferenças no tempo e na magnitude das tendências de temperatura entre as camadas profundas do Atlântico e do Pacífico poderiam auxiliar na compreensão de mudanças históricas na temperatura da superfície.

O oceano profundo tem um papel central na quantidade de energia absorvida pelos sistema climático, ressaltaram os cientistas. Eventos históricos do passado podem condicionar a forma como o sistema irá responder a eventos do presente.

Mais informações: Gebbie, G. and Huybers, P., 2019. The Little Ice Age and 20th-century deep Pacific cooling. Science, 363(6422), pp.70-74.
Imagem: Wikipedia/ pintura do navio HMS Challenger

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