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Aquecimento poderá elevar emigração no país

Estados brasileiros que experimentarem aumentos da temperatura devido ao aquecimento global poderão ver a taxa de emigração para outros estados subir. Esse efeito se fará sentir especialmente no setor da agricultura, sugeriu estudo de pesquisadoras de universidades dos Estados Unidos.

O aquecimento e as mudanças climáticas trarão severos impactos sobre as atividades humanas. Segundo o estudo, eles podem interferir na produtividade em curto prazo ou fazer áreas inabitáveis no longo prazo. Uma das consequências poderá se manifestar em grandes fluxos migratórios, dentro dos países e através de suas fronteiras.

Estimativas das Nações Unidas apontam que, desde 2008, mais de 21 milhões de pessoas são forçadas a se deslocar todo ano devido a fatores ligados ao clima. As mudanças climáticas tem o potencial de agravar significativamente esse quadro, modificando os fluxos migratórios a ponto de abalar os sistemas políticos e econômicos.

O Brasil oferece um exemplo dos impactos de desastres relacionados ao clima. Entre 2008 e 2016, mais de 1,6 milhão de pessoas se viram forçadas a se deslocar em função de inundações ou eventos extremos.

Pesquisas anteriores apontaram que a temperatura e a precipitação constituem fatores de pressão para a migração. Alterações graduais no clima estão ligadas a fluxos migratórios de longo prazos em locais dependentes da agricultura. Evidências indicam que o clima afeta a atividade econômica do setor agrícola, mas também outros setores, como a indústria.

Mapas ilustram a evolução da infraestrutura rodoviária no Brasil
Os mapas apresentam a infraestrutura rodoviária brasileira em 1986 (à esquerda) e 2010 (à direita). Fonte: figura 1 do estudo.

Mas um dos fatores por trás dos deslocamentos é o custo de migração. De acordo com o estudo, a possibilidade de migrar esbarra nos custos envolvidos. Muitas vezes, as famílias ficam impossibilitadas de migrar por causa de limitações impostas pela pobreza ou pela falta de recursos.

Compreender melhor a influência dos custos constitui em uma etapa importante na projeção das mudanças climáticas e dos possíveis fluxos migratórios. O estudo utilizou a infraestrutura viária do Brasil para estabelecer um indicador do custo de migração interna no país. As pesquisadoras digitalizaram mapas históricos de estradas não pavimentadas e rodovias.

A análise combinou também o levantamento e análise de dados geoespaciais sobre temperatura e precipitação, e de dados de migração georreferenciados extraídos de censos decenais. Dessa forma, examinou-se como alterações na temperatura e nas chuvas afetaram os fluxos migratórios entre estados brasileiros no período de 1981 a 2010.

Os resultados indicaram que uma redução no tempo de viagem – indicador de custos menores – está ligada a níveis mais altos de migração entre os estados brasileiros. Essa tendência ocorreria em cenários sem a influência do clima. A falta de conectividade entre uma região e o restante do país representou um grande obstáculo para o deslocamento das famílias.

No entanto, em um cenário de custos constantes, alterações na temperatura e na precipitação consistiram em fatores de migração. Um aumento de 10% na temperatura média do estado estaria associado a um crescimento de quase 9% na emigração de pessoas para outros estados. Em comparação com estados com temperaturas estáveis, aqueles nos quais as temperaturas médias estão subindo vêem os prejuízos ligados ao clima superarem o custo de realocação.

Mapa de alterações na temperatura e chuva em dezembro e julho nos estados brasileiros
Os mapas trazem as alterações na temperatura e precipitação médias dos meses de Dezembro (linha superior) e Julho (linha inferior) entre 1980 e 2010. As cores indicam a magnitude das alterações. Fonte: figura 4 do estudo.

Os dados sugeriram um possível papel da pobreza na limitação de fluxos migratórios. Nos estados mais pobres e agrícolas, as temperaturas mais altas estiveram associadas a menor emigração. Mas esse resultado, de acordo com o estudo, poderia refletir também uma rede de agricultores mais resiliente, com capacidade local para adaptação às alterações do clima.

Os efeitos das alterações na temperatura e na precipitação se fizeram sentir de forma mais aguda sobre famílias dependentes da atividade agrícola. Alguns trabalhadores do setor que migraram, teriam igualmente modificado o setor em que trabalham, passando para a manufatura ou serviços.

Os cenários de mudanças climáticas das próximas três décadas projetam mudanças bem mais acentuadas na temperatura e precipitação do que aquelas registradas entre 1981 e 2010. A migração no futuro breve poderá ser significativa e provavelmente setorial. Ao mesmo tempo, migrar representará uma alternativa de adaptação, que seria facilitada pelo aprimoramento da infraestrutura de transporte e pela diminuição dos custos de deslocamento.

Mais informações: Brunel, Claire and Liu, Maggie Y., Out of the Frying Pan: Climate Change and Internal Migration in Brazil (January 29, 2020).
Imagem: adaptado da figura 2 do estudo – gráfico da evolução da temperatura média no Brasil entre 1930 e 2016

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