A pegada de carbono das cidades

As cidades são um dos principais atores ligados ao aquecimento global. Elas são fundamentais para na redução das emissões de gases de efeito estufa. Há inúmeros iniciativas internacionais com base nas cidades. Uma delas, a Aliança Global dos Prefeitos para o Clima e a Energia – conhecida por C40 -, reúne 7.500 cidades em todo o mundo, representando 685 milhões de pessoas.

Todavia, quando da elaboração de inventários de gases de efeito estufa e de medidas de mitigação, o foco tem sido na abordagem tradicional, com base no território administrativo. Calculam-se as emissões liberadas diretamente por atividades residenciais, do comércio, transporte, indústria, entre outros, que ocorreram dentro do território das cidades ou naquele sob seu controle legal. Nessa abordagem, todos os atores socioeconômicos são produtores de missões diretas.

A ilustração superior (letra a) mostra o método de cálculo das emissões de gases de efeito estufa com base no território. A imagem de baixo (letra b) representa o método da pegada de carbono. Fonte: figura 1 do estudo.

Mas uma outra perspectiva pode ser adotada (imagem acima), argumenta estudo de pesquisadores alemães e dos Estados Unidos. Por meio da perspectiva do consumo, atribui-se as emissões não ao produtor econômico, mas ao consumidor final de um bem ou serviço. Se na abordagem tradicional as emissões de uma usina de geração de eletricidade, por exemplo, são colocadas na conta da empresa de energia, na perspectiva do consumo elas são atribuídas ao consumidor de energia.

Dessa forma, as emissões das cadeias de produção e distribuição de bens e serviços comprados passam a ser consideradas como do consumidor final. É a chamada pegada de carbono. Em um mundo de longas e complexas cadeias de produção globais, a diferença entre as duas perspectivas é considerável, alerta o estudo. As emissões das cadeias de produção e distribuição muitas vezes superam aquelas ligadas diretamente ao território das cidades. E isso pode limitar as políticas de mitigação do aquecimento global.

Partindo da perspectiva do consumo, os cientistas realizaram o primeiro levantamento da pegada de carbono do setor residencial de quatro grandes cidades globais: Berlim, Cidade do México, Nova Deli e Nova Iorque. Compararam o inventário das cadeias de produção e distribuição de bens e serviços com o inventário territorial, caracterizando a pegada de carbono do consumo doméstico individual de cada cidade e seu alcance global. O estudo também identificou pontos ligados à pegada de carbono que poderiam ser alvo de políticas urbana.

Comparação setorial das emissões territoriais totais (TE) e da pegada de carbono (UE) entre as quatro cidades analisadas. Os valores adotaram estão em unidades de CO2e per capita por ano. Fonte: figura 2 do estudo.

Os resultados indicam que as emissões das cadeias de produção e distribuição são da mesma magnitude do que as emissões territoriais (ver gráfico acima). As emissões das cadeias de produção e distribuição ligadas ao consumo doméstico foram significativas, variando entre 81% e 130% do total das emissões territoriais, de acordo com a cidade. Berlim e Nova Iorque, as duas cidades mais afluentes, apresentaram emissões per capita bem superiores àquelas da Cidade do México e de Nova Deli. Nelas, as emissões das cadeias de produção e distribuição superou as emissões territoriais.

De acordo com os cientistas, a comparação entre as duas abordagens exibe as vantagens do método da pegada de carbono. Infraestrutura essencial para a vida da cidade, como eletricidade, calor, abastecimento de água e tratamento de resíduos, muitas vezes fica situada na periferia. Se essa infraestrutura estiver fora do território administrativo de uma cidade, observam-se grandes distorções no inventário de emissões.

Ao mesmo tempo, evita-se pelo método da pegada de carbono a contagem dupla de emissões. Quando, por exemplo, uma usina de geração de eletricidade estiver localizada no território da cidade, todas as emissões, da produção até o consumo, serão calculadas e consideradas uma única vez. Então são atribuídas ao respectivo setor de consumo final.

O estudo aponta oportunidades para políticas urbanas reduzirem a pegada de carbono nos setores de transporte, residencial e de alimentação. Entre as possíveis medidas, listam-se a mudança do sistema de transporte, a criação de códigos e padrões de construção ligados à eficiência energética, ou a implementação de compras ecológicas pelo serviço público.

As cidades cumprirão um papel fundamental para o atendimento da meta do acordo climático de Paris, lembram os cientistas. Estudos de pegada de carbono auxiliam no entendimento da participação dos centros urbanos nas emissões territoriais e das cadeias de produção e distribuição de bens e serviços. Com isso, podem desenvolver políticas adequadas de mitigação do aquecimento global.

Mais informações: Reducing Urban Greenhouse Gas Footprints
Imagem: Flickr/ Sascha Kohlmann