Produção futura de grãos pode estagnar com aumento das temperaturas

A produtividade global média das culturas de milho e soja devem estagnar com o aumento de temperatura causado pelo aquecimento global, sugere estudo de pesquisadores japoneses publicado no jornal científico Scientific Reports. O estudo analisou em escala global a produtividade futura dos quatro mais importantes cultivos de grãos: além do milho e da soja, o arroz e o trigo.

O impacto do aquecimento global sobre a produção de alimentos é uma área de intensa pesquisa e desenvolvimento de programas de adaptação. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO na sigla em inglês -,  as mudanças climáticas podem colocar em risco a meta de erradicar a pobreza e promover a segurança alimentar.

Estudos a respeito da produtividade futura do cultivo de alimentos são importantes para informar tanto agências internacionais como a FAO quanto governos nacionais. O estudo dos pesquisadores japoneses consistiu o primeiro a avaliar globalmente as culturas de arroz, milho, soja e trigo, considerando os quatro diferentes de aquecimento global propostos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC na sigla em inglês.

Para tanto, foi desenvolvido um modelo computacional do cultivo global de grãos. Além da influência da temperatura, o modelo incluiu também as contribuições na produtividade originadas de melhorias agronômicas, como o uso crescente de tecnologia e o aprimoramento do manejo das culturas. O modelo considerou somente a área ocupada atualmente na produção dos grãos, projetando as futuras condições do período entre 2010 e 2100.

 

Figure 2
Resposta dos cultivos milho, soja, arroz e trigo ao aumento de temperatura e de CO2 em um cenário intermediário de melhoria tecnológica da produção (Fig. 2 do estudo)

Os resultados indicam que o impacto do aquecimento global varia com o tipo de cultivo. Isso se deve principalmente pelo efeito fertilizante do aumento do CO2, que no estudo compensou o efeito negativo do aumento da temperatura na produção. De todos os grãos estudados, o milho é aquele que se beneficia menos desse efeito, e portanto apresentou a maior queda de produtividade com o aumento da temperatura (gráfico do alto, à esquerda, na figura acima).

O cultivo do arroz (gráfico de baixo, à esquerda) se mostrou mais resistente do que o cultivo da soja (gráfico do alto, à direita). O arroz possui maior tolerância à alteração da temperatura, sendo que boa parte da área cultivada se localiza na região dos trópicos, em que a expectativa é de um aumento menor do que a média global. Por sua vez, boa parte do plantio da soja ocorre em regiões temperadas, como os Estados Unidos e a Argentina, onde a expectativa é de aumentos de temperatura em grau semelhante à media global, causando maiores impactos sobre o cultivo.

O trigo (gráfico de baixo, à direita) também apresentou vantagem do ponto de vista geográfico. A produção mundial se espalha por inúmeras regiões, incluindo aquelas mais frias como o Canadá, a Rússia ou o noroeste dos Estados Unidos. O aumento da temperatura nessas regiões traria impactos positivos à produção de trigo. O estudo aponta que parte dos países mais desenvolvidos do norte, em função da posição geográfica mais próxima de altas latitudes (mais frios), observariam melhoria na cultura de grãos mesmo em uma situação de altos níveis de aquecimento.

Os pesquisadores lembram que os cenários do estudo possuem limitações. Os resultados podem variar segundo o tipo de modelo computacional utilizado, bem como com as áreas de cultivo incluídas. Medidas de adaptação local às novas condições demandam constante atualização dos cenários, revisando e detalhando as premissas utilizadas.

Mais informações: Responses of crop yield growth to global temperature and socioeconomic changes
Imagem: Pixabay e Figura 2 do estudo