As emissões da agropecuária não geram manchetes nos jornais

A cobertura dos jornais brasileiros minimiza a contribuição da agropecuária nacional na emissão de gases de efeito estufa, diz estudo de cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE. Apesar da pecuária de corte representar a maior fonte de emissões brasileiras, abordagens sobre a relação entre a produção de carne e o aquecimento global estiveram praticamente ausentes dos veículos de comunicação.

De acordo com o estudo, alterar o consumo de carne vem ganhando reconhecimento como uma forma rápida e eficiente de limitar em mais de um quarto as emissões globais até 2050. Isso porque existem alternativas vegetais que, do ponto de vista nutricional, podem substituir a carne, sendo em geral baratas. A redução no consumo de carne traz outras vantagens, como, por exemplo, a promoção de dietas mais saudáveis. 

A geração de eletricidade baseada em hidrelétricas e o programa do etanol como combustível da frota de veículos faz com que as emissões do setor energético brasileiro sejam relativamente baixas. As emissões estão concentradas no setor de produção de carne e de soja para alimentação animal, entre 62% e 69% do total segundo algumas estimativas. Isso inclui não somente emissões diretas, mas também aquelas associadas à alteração do uso e ocupação dos solos. O estudo indica que a produção de carne e soja é a principal causa para o desmatamento, expandindo-se a fronteira agrícola.

Gráficos das emissões de CO2 (superior) e de CH4 (inferior) do Terceiro Inventário Nacional. Fonte: MCTI.

Os dados apresentados no Terceiro Inventário Nacional brasileiro expõe claramente a participação do setor agropecuário na emissão de gases do efeito estufa. Em relação ao CO2, entre 1990 e 2010 as emissões do país estiveram concentradas na categoria “Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas”. A grande maioria do metano – CH4 – lançado na atmosfera foi produzido pelo setor agropecuário (ver gráficos acima).

Frente a esse contexto, o estudo investigou a cobertura jornalística dos meios de comunicação nacionais sobre a relação da produção de carne e as mudanças climáticas. Os artigos de três jornais impressos diários de grande circulação – Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e Valor Econômico – foram avaliados, abrangendo o período entre 2002 e 2014.

Os resultados apontam para a invisibilidade da relação entre produção de carne e as mudanças climáticas na cobertura dos meios de comunicação. O consumo de carne é parte da vida social e da culinária do país, bem como o agronegócio é parte da economia nacional, fatores que podem desestimular os jornais a tratarem do tema.

O foco das matérias é usualmente a questão energética, em especial fontes alternativas, como biocombustíveis e etanol. Em comparação com outros países, o estudo aponta que o viés jornalístico no Brasil é tão forte que pode levar a um diagnóstico equivocado do público quanto às fontes nacionais de emissões de gases de efeito estufa.

A abordagem dos jornais analisados minimiza as severas implicações da mitigação do aquecimento global sobre o setor agropecuário brasileiro. O estudo ressalta alerta para a necessidade de analisar mais profundamente os fatores envolvidos no viés do jornalismo, uma vez que se deve estimular o debate a respeito da produção de carne no país.

Mais informações: Buffers against inconvenient knowledge: Brazilian newspaper representations of the climate-meat link
Imagem: Pixabay