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O que é aquecimento global?

Aquecimento global segundo o IPCC

Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, IPCC na siga em inglês, o aquecimento global se refere ao aumento gradual, observado ou projetado, da temperatura superficial global, enquanto consequência do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera (IPCC, 2014).

Essa definição está presente em outras referências bibliográficas. É o caso de Houghton (2009), onde aquecimento global é apresentado como a idéia de que a maior concentração dos gases de efeito estufa causa o aumento da temperatura global da Terra.

Segundo essa definição, o principal indicador do aquecimento global é a média global da temperatura da superfície do planeta, calculada a partir dos registros da temperatura atmosférica e da temperatura da água superficial dos oceanos.

O gráfico acima mostra a evolução da média global da temperatura da superfície do planeta ao longo do período entre 1850 e 2012 (IPCC, 2013). O gráfico combina três séries de dados distintas, produzidas por instituições científicas independentes. É possível verificar que as últimas três décadas foram as mais quentes já registradas. O incremento na média global da temperatura foi de cerca de 0.85°C no período entre 1880 e 2012.

Além do aumento da temperatura

Mesmo na literatura científica, utiliza-se o termo aquecimento global sem uma clara conceptualização do fenômeno que ele descreve. Um primeiro exemplo é o artigo de Hansen et. al. (2009). Segundo esses autores, observa-se no presente um desequilíbrio temporário entre a quantidade de energia solar absorvida pelo planeta e a quantidade de energia emitida de volta ao espaço, cuja consequência é o aquecimento global.

Nesse sentido, em vez de aumento de temperatura, o aquecimento global está associado ao acúmulo de energia pelo sistema climático. Também no artigo de Donohoe et. al. (2014), o aquecimento global é tratado como resultado do desequilíbrio energético do planeta causado pelo aumento da concentração dos gases de efeito estufa. O artigo expressa claramente essa definição ao caracterizar o aquecimento global como acumulação global de energia.

De fato, aquecimento global não está ligado à temperatura superficial global, como propõe o IPCC, mas à quantidade de energia no sistema climático. É o que ressalta Trenberth et. al. (2014), dizendo que:

‘Aquecimento’ diz respeito a calor e energia extra, portanto pode se manifestar de várias maneiras. O aumento da temperatura superficial é somente uma delas. O derretimento do gelo marinho do Ártico é outra. Acentuando o ciclo hidrológico ou alterando as tempestades é ainda uma outra forma de manifestação do desequilíbrio energético (…) (Trenberth et. al., 2014, pg. 3129).

A energia extra acumulada pelo sistema climático, como afirma o artigo de Von Schuckmann et. al. (2016), é convertida em diversas formas – tais como calor, energia potencial, latente, cinética ou química. Além disso, a energia é transportada e armazenada primordialmente pelos oceanos, mas também, em menor escala, pela atmosfera, os continentes e as geleiras.

Portanto, o aquecimento global representa a acumulação de energia no sistema climático da Terra. O aumento da temperatura superficial global é apenas um entre um conjunto de indicadores do aquecimento global.

Causa do aquecimento global

O atual aquecimento global é causado pela alteração da composição gasosa da atmosfera em função das atividades humanas. Nos últimos 200 anos, mas especialmente nos últimos 50 anos, a queima de combustíveis fósseis, como carvão, óleo e gás natural, e a alteração no uso e ocupação dos solos, emitiram largas quantidades de gases como do dióxido de carbono – CO2 – e metano – CH4 (Houghton, 2009).

A continuidade das emissões faz com que aumentem as concentrações desses gases na atmosfera. Por serem gases de efeito estufa, a maior concentração atmosférica intensifica o efeito estufa. Isso faz com que a quantidade de energia emitida de volta ao espaço pelo planeta seja menor do que a quantidade de radiação solar absorvida. O resultado é a acumulação de energia no sistema climático – o aquecimento global.

Consequências do aquecimento global

As consequências do aquecimento global são as mudanças nos componentes do sistema climático. Com o acúmulo de energia, as características e dinâmicas desses componente estão sendo alteradas. O IPCC sintetiza as mudanças observadas até o momento, além de realizar projeções das mudanças futuras considerando diferentes cenários de emissões de gases de efeito estufa (IPCC, 2013). Entre as alterações observadas estão:

  • Atmosfera: (1) aumento da temperatura média da superfície terrestre, que no período entre 1951 a 2010 foi da ordem de 0,5 a 1,3oC; (2) aumento da intensidade e frequência de eventos de temperatura máxima diária; (3) aumento da temperatura da troposfera e consequente resfriamento da camada inferior da estratosfera; (4) aumento da probabilidade de ocorrência de ondas de calor em algumas regiões; (5) aumento da umidade presente na atmosfera; (6) alteração do padrão das precipitações sobre os continentes; (7) alteração do padrão de chuvas extremas sobre algumas regiões continentais;
  • Criosfera: (1) redução da cobertura de gelo marinho no Ártico; (2) perda de volume e massa da calota polar da Groenlândia; (3) retração global das geleiras; (4) redução da área coberta de neve durante a primavera no Hemisfério Norte;
  • Oceanos: (1) aumento da quantidade de calor armazenada na camada entre 0 e 700 m; (2) alteração da salinidade superficial e sub-superficial das águas; (3) aumento do nível médio do mar; (4) acidificação dos oceanos.

Como é a partir da dinâmica desses componentes do sistema climático que se formam a diversidade de climas regionais, à medida que eles forem sofrendo alterações, os climas regionais também irão mudar. Essas mudanças no clima irão se traduzir, por exemplo, em dias mais quentes, invernos menos rigorosos, chuvas mais concentradas, ou secas mais frequentes. No caso dos climas regionais, as mudanças tendem a ser mais variáveis e difíceis de prever.

Fontes:
IPCC, 2013. Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge, New York: Cambridge University Press.
IPCC, 2014. Climate Change 2014: Mitigation of Climate Change. Contribution of Working Group III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge, United Kingdom and New York, NY: Cambridge University Press.
Houghton, J., 2009. Global warming: the complete briefing. Fourth ed. Cambridge: Cambridge University Press.
Hansen, J., Sato, M., Kharecha, P. & Schuckmann, K. V., 2011. Earth’s energy imbalance and implications. Atmospheric Chemistry and Physics, 22 December, p. 13421–13449.
Donohoe, A., Armour, K. C., Pendergrass, A. G., & Battisti, D. S. (2014). Shortwave and longwave radiative contributions to global warming under increasing CO2. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(47), 16700-16705.
Trenberth, K. E., Fasullo, J. T., & Balmaseda, M. A. (2014). Earth’s energy imbalance. Journal of Climate, 27(9), 3129-3144.
Von Schuckmann, K., Palmer, M.D., Trenberth, K.E., Cazenave, A., Chambers, D., Champollion, N., Hansen, J., Josey, S.A., Loeb, N., Mathieu, P.P. and Meyssignac, B., 2016. An imperative to monitor Earth’s energy imbalance. Nature Climate Change, 6(2), pp.138-144.
Imagem: Pixabay

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