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Aquecimento e CO2 deixaram o mundo mais verde

Em todo o mundo, a vegetação está se tornando mais verde. Entre os motivos estão o aumento das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono – CO2 – e o aquecimento global. A mudança na cobertura vegetal consiste em uma das alterações em curso do sistema climático, apontou estudo de um time internacional de cientistas.

O fenômeno do esverdeamento da vegetação global tem sido monitorado desde pelo menos 1981. Levantamentos de satélite revelam que as áreas com cobertura vegetal se tornaram mais verdes, uma tendência que, segundo dados recentes, estende-se da década de 1980 até depois de 2010.

O estudo realizou uma revisão da literatura científica, de forma a caracterizar os padrões espaciais e temporais do fenômeno. Buscou-se identificar os principais fatores por trás das mudanças observadas na vegetação em escala global e regional, e também as consequências dessas mudanças.

Gráfico de indicadores do esverdeamento da vegetação globaldesde 1980
Os gráficos apresentam indicadores do esverdeamento da vegetação registrado a partir de 1980. No gráfico superior, o monitoramento da área foliar. No inferior, o índice de vegetação. Fonte: adaptado da figura 1 do estudo.

Além de ecossistemas fundamentais, a vegetação também participa do sistema climático. Ela exerce papel central nos fluxos de carbono e água entre a atmosfera e a superfície terrestre. Também influencia o comportamento atmosférico por meio de trocas de energia e momento.

Em nível global, identificou-se a fertilização do CO2 como o principal fator da tendência de esverdeamento da vegetação. O aumento da concentração atmosférica de CO2 favorece a realização da fotossíntese pelas plantas. Com isso, elas crescem e se desenvolvem mais facilmente.

A tendência de verdejamento da vegetação mostrou variações regionais. Ele ocorreu de modo mais pronunciado na China e na Índia. Nos dois países, a principal causa foi a atividade humana, através do reflorestamento ou da modificação no uso e ocupação da terra.

Outra região de destaque foi o norte do Hemisfério Norte do planeta, em especial o bioma das florestas boreais e o Ártico. Lá, o aquecimento – o aumento das temperaturas – foi benéfico para a vegetação e contribuiu decisivamente para a tendência de esverdeamento da vegetação. Em outros locais, como nos trópicos, o aquecimento apresentou efeitos opostos, prejudicando as plantas e diminuindo o verdejamento.

Umas das consequências do esverdeamento da vegetação global foi frear a taxa de aquecimento global. Em primeiro lugar, a vegetação eleva a quantidade de carbono utilizado na fotossíntese. Dessa forma, sequestra volumes maiores de carbono da atmosfera.

De acordo com o estudo, estima-se que, desde 1980, a vegetação absorveu cerca de 29% das emissões humanas de CO2. Múltiplas evidências mostram que desde 1980 cresceu o sequestro de carbono realizado pelos ecossistemas terrestres. Modelos sugerem o verdejamento da cobertura vegetal respondeu por 36% desse crescimento.

Outra influencia da vegetação se dá por meio de modificações em processos biogeofísicos da superfície terrestre. Por exemplo, a cobertura vegetal pode influenciar o clima através do albedo ou da evapotranspiração.

Existem duas formas principais pelas quais a superfície terrestre libera água na forma de vapor para a atmosfera. Uma delas é a evaporação da água dos solos. A segunda diz respeito à evapotranspiração – a água transpirada como vapor pelas folhas das plantas.

O verdejamento representa um crescimento na produção de folhas pelas plantas e, portanto, a transpiração de água. Caso não interfira significativamente na evaporação de água do solo, o o esverdeamento da vegetação a quantidade de vapor de água liberada pela superfície para a atmosfera.

O sensoriamento por satélite apontou que a evapotranspiração global experimentou uma tendência de aumento desde 1980. Atribuiu-se mais da metade do crescimento ao fenômeno de esverdeamento da cobertura vegetal.

Localmente, a tendência reduziria a umidade e o escoamento do solo. Regionalmente, no entanto, o escoamento poderia cair ou subir, uma vez que a maior evapotranspiração alterava o padrão das chuvas.

A troca de energia entre a superfície terrestre e a atmosfera também esteve sob a influência do fenômeno de verdejamento. Nas zonas mais quentes, como os trópicos e sub-trópicos, o fenômeno de esverdeamento da vegetação para mitigar a taxa de aquecimento. Ainda não foi possível detectar os efeitos em zonas extratropicais do Hemisfério Norte.

Segundo o estudo, a soma dos efeitos do verdejamento registrado desde 1980 teria atenuado a taxa de aquecimento global. Além de promover um maior sequestro de carbono, levou também a um resfriamento evaporativo das temperaturas em escala global.

Ainda há muitos desafios ligados ao estudo da biosfera. E há muitas incertezas sobre a continuidade do verdejamento no futuro próximo. Até agora, em relação ao aquecimento globa, a natureza jogou a favor da humanidade. Deveríamos aproveitar antes que ela mude de lado.

Mais informações: Piao, S., Wang, X., Park, T. et al. Characteristics, drivers and feedbacks of global greeningNat Rev Earth Environ 1, 14–27 (2020).
Imagem: adaptado da figura 1 do estudo – mapa de tendência do índice de área foliar entre 1982 e 2009. O índice serve como indicador do verdejamento da vegetação.

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