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Análise de riscos de projetos hidrelétricos em um contexto de mudanças climáticas

As mudanças climáticas introduziu um novo desafio para o planejamento de projetos de infraestrutura ligados ao uso de recursos hídricos, como barragens para abastecimento de água ou geração de energia hidrelétrica. Porque o aquecimento global introduz alterações no sistema climático, não se pode mais adotar a mesma metodologia do passado.

O método antigo se baseava em informações sobre a precipitação ou o fluxo de água dos rios. A partir dos dados coletados ao longo do tempo por estações de monitoramento, como, por exemplo, as estações da Agência Nacional de Águas – ANA, estabelecia-se o padrão de chuvas ou de vazões relacionados a um determinado rio. A elaboração do projeto de infraestrutura adotava o paradigma, conhecido por estacionariedade, de que o mesmo padrão se repetiria no futuro.

Contudo, esse paradigma da estacionariedade perdeu a validade frente às mudanças climáticas, uma vez que o padrão de chuvas e de vazão dos rios tende a se alterar no futuro em comparação com os dados da série histórica. O problema é que não se pode projetar com exatidão como e com qual intensidade o padrão de chuvas e de vazão dos rios será afetado. As projeções do futuro estão repletas de incertezas.

Tendo em vista essa situação, cientistas dos Estados Unidos propuseram um novo método para avaliar o risco de projetos hidrelétricos. Entre os fatores de incerteza relacionadas ao clima, eles listam as trajetórias futuras de emissões de gases de efeito estufa, a variabilidade natural, e os limites na compreensão de como os sistemas biofísicos responderão às mudanças climáticas, particularmente em escalas locais ou regionais.

Uma primeira abordagem para lidar com a não estacionariedade foi o uso de informações proveniente de modelos climáticos. Ele inclui a projeção de diversos cenários futuros para o clima, cujos dados relativos às variáveis climáticas ou hidrológicas é reduzido a uma resolução espacial menor, mais adequada à elaboração do projeto. 

Outra abordagem utiliza os modelos climáticos, mas os resultados das projeções são submetidos a um processo de análise da vulnerabilidade às mudanças climáticas. A análise busca reduzir a vulnerabilidade, considerando principalmente três aspectos. O primeiro é a robustez, ações que aumentem a capacidade do projeto de operar adequadamente mesmo diante das futuras incertezas. O segundo é a flexibilidade, desenvolvendo o potencial para se adaptar à mudanças. E o terceiro é a resiliência, fortalecendo a condição de se recuperar rapidamente de eventos indesejados ou falhas. 

A limitação das duas abordagens diz respeito, segundo os cientistas. à dependência de projeções climáticas futuras de modelos climáticos. A desvantagem do uso de modelos diz respeito à premissas subjetivas e problemas estruturais que caracterizam o processo de modelagem climática e criação de cenários. Há um viés nas projeções, e nem toda a gama de possíveis cenários futuros é considerada.

Se as projeções de modelos climáticos são incertas, indagam os cientistas, como se pode utilizá-los de modo mais proveitoso na análise de riscos climáticos? Eles sugerem um método no qual, em vez de centrais, os modelos sejam complementares na avaliação de riscos dos projetos de infraestrutura.

O método tem como referência aplicativos de dimensionamento de decisão – decision scaling, em inglês. O primeiro passo consiste em realizar um teste de estresse do projeto à diversas variáveis meteorológicas e seu comportamento futuro, considerando os dados históricos e as incertezas. Os resultados do teste identificam a sensibilidade às mudanças climáticas. A partir daí, utilizam-se as projeções estatísticas futuras de modelos climáticos para fazer uma análise de riscos sobre os pontos sensíveis e sua probabilidade de ocorrer no futuro.

O enfoque se aplica a cada uma das diferentes configurações do projeto. Elas devem ser comparadas e classificadas por meio de um procedimento formal de análise de decisão, usando critérios que incluam a robustez, a flexibilidade e a resiliência. As informações provenientes dos modelos climáticos são consultadas em etapa posterior, após o teste de estresse, e de modo indireto, a fim de subsidiar a definição de probabilidade futura.

Diante da profunda incerteza quanto às futuras condições climáticas, os cientistas ressaltam que as decisões de planejamento de infraestrutura se tornam altamente subjetivas. A classificação dos riscos, o balanço entre desempenho operacional e robustez do projeto, entre outros, irão depender da perspectiva do tomador de decisão e das partes interessadas.

Mais informações: Robustness-based evaluation of hydropower infrastructure design under climate change
Imagem: Flickr/ Victor Carvalho

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