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A agricultura pode ser 100% orgânica?

Não é possível simplesmente converter os sistemas agrícolas globais do modo de produção convencional para o orgânico sem prejudicar a produção de alimentos, afirma estudo de um grupo de pesquisadores europeus. A expansão em larga escala da agricultura orgânica demandaria uma dramática mudança nas práticas agropecuárias e no consumo de alimentos mundo afora.

A agricultura intensiva foi responsável pelo considerável aumento na produção de alimentos das últimas décadas. Todavia, trouxe consigo um conjuntos de impactos sobre o meio ambiente, como a perda de biodiversidade e a contribuição com o aquecimento global por meio de emissões de gases de efeito estufa.

Segundo o estudo, projeta-se que em 2050 a produção agrícola deverá ser 50% maior devido ao crescimento da população mundial e à mudança dos padrões alimentares. A agricultura, portanto, vive uma situação contraditória. Ao mesmo tempo em que constitui uma atividade humana geradora de impactos negativos, ela é crucial para a segurança alimentar.

Uma das alternativas para superar essa contradição é a agricultura orgânica. Mas, lembram os pesquisadores, essa é uma alternativa controversa. Se por um lado se reduz o uso de fertilizantes e pesticidas sintéticos, por outro lado a produtividade é bem mais baixa. Dessa forma, demandaria áreas maiores a fim produzir a mesma quantidade de alimentos, provocando maiores impactos. 

O estudo adotou um novo ponto de vista para explorar o potencial da agricultura orgânica. Em vez de analisar o sistema de produção, os cientistas consideraram o sistema alimentar. Para tanto, investigaram também os regimes de alimentação animal, as tendências de consumo e o desperdício de alimentos.

Os pesquisadores elaboraram um cenário no qual a produção total de alimentos se desse exclusivamente de modo orgânico, avaliando os impactos ambientais. Depois incluíram duas estratégias no cenário. Uma delas consistiu na diminuição do consumo de proteína animal e do tamanho dos rebanhos. Com isso, a terra arável atualmente destinada à alimentação animal (com exceção das pastagens) poderia ser convertida em cultivos orgânicos. A outra foi a redução no desperdício de alimentos. 

O estudo se baseou em um modelo computacional que simula os sistemas agrícolas em escala mundial. O modelo inclui apenas aspectos físicos e biológicos a nível nacional para uma grande quantidade de cultivares. Questões sociais e econômicas não foram consideradas. As simulações incluíram cenário sem e com a influência das mudanças climáticas.

Os resultados sugerem que não é viável converter todo o sistema agrícola convencional em orgânico, mantendo-se as mesmas quantidades de proteínas e calorias. No entanto, ao se implementar outras estratégias de reconfiguração do sistema alimentar mundial, os cientistas indicam que a agricultura orgânica poderia fornecer alimentos suficientes para atender a população até 2050.

De um modo geral, a transformação no sistema alimentar ocorreria pela soma dos diferentes fatores. Por exemplo, em um dos cenários classificado como viável pelo estudo, a produção de alimentos para animais seria reduzida em 50%, o que levaria a uma grande diminuição dos rebanhos e a uma alteração na dieta alimentar. Ao mesmo tempo, o desperdício de alimentos também deveria cair acentuadamente, em 50%, enquanto a produção orgânica se expandia para responder por 60% do total de alimentos.

Nesse cenário, haveria uma pequena demanda adicional de terra. Os impactos das mudanças climáticas sobre os rendimentos do setor agrícola seriam médios. Por sua vez, o manejo dos nutrientes do solo, particularmente a fixação de Nitrogênio – N -, poderia introduzir desafios para a produtividade.

Em termos dos gases de efeito estufa, o estudo calculou que uma conversão em 100% da produção de alimentos para o modelo orgânico diminuiria as emissões futuras entre 11 e 14% em comparação com o modelo convencional. Ainda assim, a quantidade total de gases emitidos em 2050 pelo setor subiria entre 12 e 14% em relação aos níveis atuais.

O desenvolvimento da agricultura orgânica envolve alterações na produção e no consumo de alimentos, conclui o estudo. E depende da coordenação de várias estratégias diferentes, como aumento da produção orgânica, redução do desperdício e do número de animais.

Mais informações: Strategies for feeding the world more sustainably with organic agriculture
Imagem: Pixabay

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