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Acúmulo de calor pelos oceanos

Como consequência do aquecimento global, registra-se uma rápida absorção de calor pelos oceanos nas últimas décadas, apontou artigo de cientistas de universidades da China e dos Estados Unidos. A velocidade é maior do que o estimado no último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês.

O aumento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa levou ao desequilíbrio energético do sistema climático terrestre. A quantidade de energia absorvida pelo sistema – na forma de radiação solar – tem sido maior do que a quantidade de energia emitida de volta ao espaço – na forma de radiação infravermelha.

Segundo o artigo, aproximadamente 93% da energia adicional acumulada pelo sistema climático se acumula no oceano na forma de calor. Dessa forma, o aquecimento global leva ao crescimento da quantidade de calor presente no oceano.

Ao contrário do aumento da temperatura média do ar, o crescimento da quantidade de calor do oceano sofre menos interferência da variabilidade interna do sistema climático. Constitui, assim, um indicador mais adequado para detectar os efeitos do aquecimento provocado pelas emissões das atividades humanas.

O último relatório do IPCC, publicado em 2013, trouxe cinco diferentes séries históricas da quantidade de calor dos oceanos. Cada uma se baseava em uma metodologia distinta, havendo algumas fontes de incertezas. Em especial, os métodos de correção de dados adotavam suposições muito diferentes entre si.

Desde então, a comunidade científica avançou na análise e reconstrução dos dados. Foram identificados os principais fatores que influenciam os erros nas séries históricas, tornando a reconstrução das séries bem mais precisa.

Além disso, os métodos também experimentaram aprimoramentos. Ao revisar os resultados mais recentes, os cientistas observaram que quatro novos levantamentos independentes sugerem um forte crescimento da quantidade de calor dos oceanos.

As novas estimativas mostram uma tendência de aumento altamente consistentes desde o final da década de 1950. O aquecimento observado entre 1971 e 2010 é maior do que o apresentado no último relatório do IPCC.

O monitoramento dos oceanos deu um grande salto a partir do início dos anos 2000, quando foi implantada a rede Argo – um conjunto de estações de coleta de dados distribuída ao redor do planeta. Apesar de relativamente recente, a rede ampliou a cobertura de observações e diminuiu as incertezas.

Gráfico do aumento de calor dos oceanos
O gráfico mostra os resultados mais recentes do monitoramento da quantidade de calor dos oceanos. Abrange o período entre janeiro de 2019 e setembro de 2018. Fonte: adaptado da figura 2 do artigo.

Tanto as novas estimativas quanto os dados da rede Argos apontam para o conservadorismo das estimativas anteriores do IPCC. A absorção de calor pelos oceanos está se acelerando.

O artigo ressaltou, no entanto, que algumas incertezas permanecem, em especial para as camadas profundas dos oceanos, as regiões costeiras, e para o período anterior à implantação da rede Argo. Ainda há espaço para aprimoramentos na recuperação e tratamento de dados históricos de monitoramento das águas oceânicas.

É preciso também expandir a rede de monitoramento, incluindo levantamentos também para profundidades maiores do que 2000 m.

O aumento da absorção de calor pelos oceanos é um indicador claro do aquecimento global, afirmaram os cientistas. As projeções dos modelos climáticos apontam que a tendência continuará, acompanhando o crescimento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa provocado pelas emissões humanas.

A alteração registrada nos oceanos tem se traduzido em temperaturas da água mais elevadas e no aumento do nível médio do mar. Tais modificações estão associadas a transformações em tempestades, furacões e no ciclo hidrológico, incluindo eventos extremos de precipitação.

A fim de evitar o agravamento das condições atuais, deve-se diminuir ou interromper as emissões, limitando o aquecimento global. Mas impactos das alterações provocadas até o momento ainda ocorrerão e, por isso, as sociedades precisarão também se adaptar.

Mais informações: Lijing Cheng, John Abraham, Zeke Hausfather, Kevin E. Trenberth. How fast are the oceans warming? Science, 2019
Imagem: CSIRO/Alicia Navidad – cientistas lançam estação da rede Argo no mar

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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