Press "Enter" to skip to content

Acordo de Paris não tem sido eficaz em mitigar o aquecimento global

Não é somente a saída dos Estados Unidos que ameaça o acordo climático de Paris. Nenhum dos maiores países industrializados está cumprindo as metas de redução dos gases de efeito estufa. Um total de 153 países ratificaram o tratado, sendo que 147 deles submeteram metas nacionais de redução de emissões. A propostas do acordo é que cada país implementará voluntariamente ações para que suas metas sejam cumpridas. O problema é que os governos tem feito promessas que não conseguem cumprir.

Os países em desenvolvimento também são fundamentais para que o acordo se concretize, mas as metas desses países são mais fáceis de serem atingidas. Já as nações industrializadas são centrais para o sucesso do acordo climático de Paris, e o cumprimento das metas por esses países envolve os custos mais altos. Dessa forma, apesar de se observarem recentemente reduções na emissão de gases de efeito estufa pelos países industrializados, o ritmo de queda não é rápido o suficiente para que as metas sejam cumpridas.

 

GHG emissions.png
Emissões de gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis e indústria, separado por países e regiões. Fonte: UNEP/The emission gap report, Fig. 2.1

 

A situação é mais grave no caso dos Estados Unidos. Durante a administração Obama, em 2015, o país se comprometeu a reduzir as emissões em 26 a 28% abaixo dos níveis de 2005 até o ano de 2025. Na prática, os cortes provavelmente ficariam entre 15 e 19%, especialmente por alterações no setor energético do país, substituindo-se o carvão pelo gás e incrementando a instalação de fontes renováveis. Contudo, essas iniciativas ficaram ameaçadas com a eleição de Donald Trump, cujo governo tenta reverter diversas iniciativas de controle das emissões.

Outro exemplo vem do Japão, cuja meta prevê para 2030 emissões 26% menores do que o nível de 2013. Uma das dificuldades é que a economia japonesa apresenta um alto grau de eficiência energética, fazendo com que avanços demandem esforços muito maiores, com custos altos. As medidas de controle de emissões podem tornar a indústria local menos competitiva, fazendo sua implementação politicamente impopular. Além disso, a viabilidade das ações direcionadas ao setor energético são questionáveis. O país propõe a redução do consumo de eletricidade ao mesmo tempo em que prevê a eletrificação do setor de transporte. O plano de instalação de novas usinas nucleares não será cumprido.

Na União Européia também se verifica uma significativa distância entre as promessas e a realidade. Uma das medidas, o mercado de carbono local (Emission Trade Scheme, em inglês), pretende levar até 2030 os setores energético e industrial a cortarem as emissões para níveis 43% menores do que os de 2005. A maior parte dos cortes viria da substituição do carvão pelo gás. Todavia, o mercado de carbono europeu deixa de fora 55% do total das emissões, associadas a outros setores, como agricultura e transportes. Para esses setores, os custos podem ser altos e as dificuldades práticas de implementação, inúmeras.

 

Emissions gap
Projeções das emissões de gases de efeito estufa. Tendência atual, sem reduções, em cinza (baseline); linha amarela com as metas propostas pelos países (current policy trajectory); as linhas azul e roxa mostram a mitigação em conformidade com o acordo de Paris. Fonte: UNEP/The emission gap report, Fig. ES2

 

Dúvidas sobre a viabilidade de cumprimento das metas se observam também em outras nações industrializadas, como Australia, México e Coréia do Sul. Em geral, a disparidade entre as metas prometidas e as ações reais para redução das emissões é particularmente maior para as estratégias ligadas ao aumento da eficiência energética. Há igualmente pouca transparência em relação a diversos outros aspectos, como os custos das medidas propostas, as projeções de emissões futuras, a viabilidade do sequestro de carbono por florestas, ou à efetividade de políticas ou instrumentos de mercado.

A situação atual indica uma falta de cooperação entre os países. Nesse sentido, o acordo climático de Paris, apesar de importante passo na mitigação do aquecimento global, precisa ser aprimorado. Maior transparência na proposição e acompanhamento das metas, com foco na execução de ações, é imprescindível para a efetividade do acordo.

Fonte: Nature
Imagem: Pixabay

3 Comments

Comments are closed, but <a href="https://cienciaeclima.com.br/acordo-de-paris-nao-tem-sido-eficaz-em-mitigar-o-aquecimento-global/trackback/" title="Trackback URL for this post">trackbacks</a> and pingbacks are open.

%d blogueiros gostam disto: