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A acidificação dos oceanos

As emissões de gases de efeito estufa possuem outro efeito além do aquecimento global. Ele é chamado de acidificação dos oceanos, e pode ter consequências tão graves quanto as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global.

Através da queima de combustíveis fósseis e da alteração no uso e ocupação dos solos, as atividades humanas emitem dióxido de carbono – CO2 – para a atmosfera. Pela estimativa do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, entre 1750 e 2011 foram liberados cerca de 555 pentagramas de carbono – PgC. Mas boa parte desse total é reabsorvido pelos solos e ecossistemas terrestres e pelos oceanos.

Dessa forma, a quantidade de carbono acumulado na atmosfera subiu em 240 PgC entre 1750 e 2011, ou 43% das emissões totais. A concentração atmosférica de CO2 passou de cerca de 278 ppm em 1750 para 390,5 ppm em 2011 (ver imagem abaixo). Em 2017 ultrapassou a marca de 410 ppm. No mesmo período, os solos e ecossistemas terrestres sequestraram aproximadamente 160 PgC, ou 29% do total das emissões. Estima-se que os restantes 155 PgC, ou 25% do total, acabaram absorvidos pelos oceanos.

Evolução da concentração atmosférica de CO2 (superior), metano (meio) e N2O (inferior) nos últimos dois anos. Todos eles são gases de efeito estufa emitidos por atividades humanas. Fonte: figura 6-11 IPCC AR5.

Nos oceanos, o CO2 reage quimicamente com as moléculas de água, cujo produto será ácido carbônico, íons de carbono e íons de hidrogênio. Quanto mais CO2 é absorvido, maior a quantidade desses elementos nos oceanos. O problema é que a concentração de íons de hidrogênio altera o pH da água. O aumento da concentração diminui o pH, tornando a água mais ácida.

Estima-se que na época da Revolução Industrial, o pH médio global do oceano era de aproximadamente 8,2. De lá para cá, calcula-se que a concentração de íons de hidrogênio subiu em 26%, fazendo com que o pH diminuísse para cerca de 8,1. Há projeções que apontam uma queda do pH médio global entre 7,7 e 7,9 em 2100, dependendo do cenário de emissões de CO2.

Uma pequena alteração do pH pode ter consequências significativas para algumas espécies marinhas. Um dos exemplos mais conhecidos é o dos organismos marinhos calcificadores, que constroem conchas ou esqueletos de carbonato de cálcio. Estudos indicaram que a acidificação das águas interfere na quantidade de carbonato dissolvido na água. Os organismos demoram mais em formar as conchas ou esqueletos, que ainda podem sofrer de deformações ou ficarem mais frágeis. Espécies mais sensíveis ao pH podem observar uma dissolução das conchas.

Outro efeito diz respeito ao gasto de energia. Com a acidificação dos oceanos, os organismos marinhos terão de trabalhar mais, e portanto despender uma quantidade maior de energia, tanto na formação de conchas e esqueletos quanto na regulação do pH interno. Para algumas espécies de peixe, o maior gasto energético poderá fazer com que a taxa de mortalidade das larvas, e o tempo que demoram para alcançar o estado adulto, aumentem com o nível do pH previsto para o ano de 2100.  

Outras espécies marinhas serão beneficiadas com as mudanças, como alguns tipos de fitoplânctons e algas. Essa variação na resposta de diferentes organismos pode gerar desequilíbrios nos ecossistemas marinhos. Por exemplo, um boom no crescimento de algas pode interferir na concentração de oxigênio das águas, com impactos sobre os peixes. 

A mudança no pH também poderá ter consequências sobre a comunicação química dos organismos marinhos – o sentido do olfato. A acidificação da água interfere na interação entre os receptores sensoriais dos animais e as moléculas presentes na água. Pode até chegar a interromper a interação, como se a espécie perdesse o olfato.

Além disso, para se adaptar a um ambiente mais ácido, os animais marinhos terão de alterar a química interna do próprio corpo. Estudos sugerem que, em algumas espécies, a alteração química do sangue traz implicações para o funcionamento de neurotransmissores. O comportamento do animal se altera.

O estudo da acidificação dos oceanos é relativamente recente. Assim, há inúmeras questões ainda a serem investigadas pela ciência. 

As experiências com organismos que reproduzem rapidamente, como o fitoplâncton, estão começando a fornecer informações sobre essas questões. Para espécies de vida mais longa, a análise genética pode ajudar a prever sua capacidade de se adaptar às condições futuras. Mas será complicado encontrar respostas antes de nossa experiência planetária em larga escala em acidificação oceânica ter seguido seu curso.

Fonte: Nature e IPCC AR-5
Imagem: Pixabay

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