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A negação do conhecimento científico

A comunidade científica precisa se esforçar mais para desmascarar as falsas alegações e os esquemas de pessoas e instituições que negam o aquecimento global, afirma estudo de um grupo de pesquisadores suecos. O fenômeno da negação do conhecimento científico é mais comum em países anglo-saxões, exercendo uma nefasta influência sobre a elaboração de políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Segundo o estudo, exemplo do movimento anti-científico é a atual administração dos Estados Unidos. Ao promover a dúvida sobre a ciência do clima, os integrantes do governo, entre eles o próprio presidente Donald Trump, minam ou postergam a implementação de políticas ambientais nos próximos anos. Organizada e perpetrada por atores com considerável capital político ou econômico, a negação do conhecimento científico pode afetar a forma como a sociedade responde a graves ameaças ou problemas.

O estudo revisou artigos da literatura científica publicados nos últimos 25 anos sobre a negação das ciências ambientais. O objetivo foi identificar qual fato científico está sendo negado e por quem, além de definir o que é a negação da ciência e quais as  principais estratégias adotadas. Buscou-se também estabelecer as estratégias para combater o fenômeno dos movimentos anti-científicos.

A maior parte da literatura científica sobre o assunto foi publicada após 2010. Isso pode estar relacionado ao fato de que, a partir de 2007, observou-se um aumento da publicação de livros de negação à ciência das mudanças climáticas. Quase 50% dos artigos tem uma perspectiva anglo-americana, com foco em movimentos anti-científicos nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.

Quanto ao fato científico que está sendo negado, a grande maioria da literatura aborda a negação da ciência do aquecimento global, a mais coordenada e bem dirigida forma de negação ao ambientalismo e à ciência ambiental em geral. Os pesquisadores suecos citam quatro principais variações dos fatos questionados pelo movimento anti-científico.

Os negacionistas da tendência contestam que qualquer aquecimento esteja acontecendo. Os negacionistas da atribuição questionam a natureza antrópica do aquecimento global observado. Os negacionistas dos impactos duvidam que o aquecimento trará impactos às atividades humanas e ao meio ambiente. Finalmente, os negacionistas do consenso discordam do consenso existente entre a comunidade científica no que diz respeito às mudanças climáticas.

Em relação aos atores por trás do movimento anti-científico, eles foram classificados em seis diferentes categorias, que não são mutuamente exclusivas. A primeira categoria é a de cientistas, composta por uma pequena minoria de profissionais que negam a evidência de problemas ambientais, como chuva ácida, depleção de ozônio e mudanças climáticas. Em geral, esses profissionais não fazem parte da comunidade científica que desenvolve a pesquisa do campo em questão, e muitos deles não estão afiliados a instituições acadêmicas, mas trabalham para organizações (think tanks).

Outra categoria é a administração pública. O estudo cita os exemplos das administrações passadas da Austrália e do Canadá que, apesar de reconhecer a realidade das mudanças climáticas, questionava a necessidade de de forma decisiva em termos de mitigação e adaptação. Outro exemplo de governo negacionista foi o de George W Bush, nos Estados Unidos, reconhecido como ator significativo na guerra contra a ciência.

Organizações políticas e religiosas, como fundações e institutos, constituem um dos principais focos do movimento anti-científico. A maior parte da literatura científica revisada pelos pesquisadores sueco aborda esse grupo. Em particular, aqueles ligados à elite conservadora dos Estados Unidos. Entre eles, a Heritage Foundation, o Instituto Cato, o Instituto Heartland, grupos neoliberais e neoconservadores, o Partido Republicano, o movimento Tea Party e os conservadores cristãos. Tais organizações disseminam o negacionismo para outros países.

Por meio de empresas privadas, associações industriais, grupos empresariais e colisões, a indústria também constitui uma categoria dos atores do movimento anti-científico. Eles são importantes financiadores de atividades hostis à ciência ambiental. Muitas das empresas envolvidas com a negação da ciência climática são do setor de petróleo ou carvão. Mas indústrias de aço, mineração e automóveis também possuem participação importante no movimento anti-científico.

Os meios de comunicação formam a quinta categoria de atores promotores da negação à ciência, incluindo jornais e as mídias sociais. Uma avaliação dos jornais do Brasil, China, Estados Unidos, França, Índia e Reino Unido aponta uma forte correlação entre afiliação à direita conservadora e a publicação de artigos negacionistas.

Finalmente, o público dos diferentes países é o último ator relacionado à negação do conhecimento científico. Por exemplo, pesquisas nos Estados Unidos mostram que pessoas liberais e democratas são mais propensos a acreditar no aquecimento global do que conservadores e republicanos. Já no Reino Unido, é rara entre o público a rejeição à ciência climática, mas se pode observar o negacionismo dos impactos do aquecimento global e o negacionismo do consenso. Todas a formas de negacionismo na Alemanha são raras.

Os pesquisadores ressaltam os diversos termos com os quais a negação da ciência ambiental e climática se disfarça. Entre eles, incluem-se ceticismo, contrarianismo, ou dúvida. Ceticismo, um dos termos mais populares, é aplicado de modo equivocado, alertam vários autores da literatura científica. A negação consiste na vontade de desacreditar um campo científico através da disseminação de dúvidas sobre dados e resultados científicos válidos, da deturpação do trabalho científico e da rejeição do consenso.

Entre as inúmeras explicações para o fenômeno do movimento anti-ciência, listam-se fatores psicológicos, sociais, valores e pontos de vista. Contudo, um dos motivos estudados com maior profundidade foi o negacionismo organizado, representado nos Estados Unidos pelo lobby e a propaganda de grupos políticos, industriais e religiosos, e outras organizações (think tanks).

O negacionismo organizado surge em defesa de ideologias conservadoras e dos interesses ligados aos combustíveis fósseis – como petróleo e gás -, o que muitas vezes se manifesta de forma combinada. Devido, entre outras coisas, à uma aplicação viciada do princípio do equilíbrio de opiniões na mídia, a desinformação produzida pelo negacionismo organizado foi colocada no mesmo patamar das informações de fontes científicas.

Em resposta ao movimento anti-ciência, a comunidade científica propôs inúmeras estratégias, com o aprimoramento da comunicação, a educação, ou mesmo maior engajamento político. Todavia, o estudo registra que há poucas avaliações na literatura que desenvolvem e testam a eficácia e eficiência dessas estratégias. Para os pesquisadores, é urgente que a comunidade científica redobre os esforços em expor e denunciar afirmações falsas, desmascarando os esquemas dos negacionistas através de estratégias efetivas e eficientes.

Mais informações: Climate and environmental science denial: A review of the scientific literature published in 1990-2015
Imagem: Pixabay

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