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A geoengenharia é uma aposta de alto risco

As técnicas de geoengenharia do clima se encontram em um estágio inicial de desenvolvimento, e não se pode confiar que elas contribuirão significativamente para os sucesso das metas do acordo climático de Paris. Essa foi a conclusão de um artigo de um grupo internacional de cientistas.

O acordo de Paris busca limitar o aquecimento global a menos do que 2°C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para que o aumento da temperatura média global seja de 1,5°C. Em 2015 e 2016, anos sob a influência de um evento de El Niño, a temperatura havia subido 1,1°C. Em 2017, o aquecimento registrava cerca de 1°C.

Usualmente, a ciência considera que o aumento da temperatura ocorrerá quase linearmente ao aumento das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono – CO2. Quanto maiores as emissões humanas do gás de efeito estufa, mais se elevarão suas concentrações na atmosfera e, dessa forma, a temperatura média do planeta.

Estimativas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês – apontavam que, a partir de 2011, emissões humanas de adicionais 400 gigatoneladas de carbono elevariam o COatmosférico a níveis suficientes para elevar a temperatura em 1,5°C. As emissões adicionais totalizariam 1.000 gigatoneladas, no caso da meta de 2°C.

Segundo o artigo, as emissões globais somam um pouco mais de 40 gigatoneladas de carbono por ano. Mantendo-se no mesmo patamar, as 400 Gt de carbono terão sido emitidas até 2020, e as 1.000 GtC, até 2035.

Haverá uma redução das emissões globais de gases de efeito estufa? Se todos os países cumprirem os compromissos de mitigação assumidos nas Contribuições Nacionalmente Determinadas – CNDs -, é provável que as emissões se mantenham no mesmo patamar entre 2015 e 2030. Ou, então, aumentem ligeiramente.

Dessa forma, o contexto atual indica uma chance muito pequena de sucesso das metas do acordo de Paris. Mas, por outro lado, o acordo foi instituído com vistas a se evitar os impactos do aquecimento global.

Os cientistas alertaram que, em cenários no qual o sistema climático ultrapasse 1,5°C, e especialmente a 2°C, projetam-se consequências severas para sociedades e ecossistemas em todo o mundo.

Nesse contexto, emergiu o debate sobre a possibilidade da geoengenharia em limitar o aquecimento global. O artigo apontou duas linhas gerais de ação da geoengenharia. A primeira está orientada para a captura e sequestro do carbono da atmosfera, fazendo cair as concentrações atmosféricas de CO2.

A segunda abrange a manipulação da troca de energia entre o sistema climático e o espaço. Inclui a aplicação de métodos para diminuir a quantidade de radiação solar absorvida pelo planeta. Uma menor quantidade de energia absorvida se traduziria em um menor aumento da temperatura média global.

Apesar de existirem somente no papel, a geoengenharia passou a integrar a elaboração de projeções futuras e nas discussões de políticas climáticas. De acordo com o artigo, a grande maioria dos cenários futuros de mudanças climáticas do IPCC, nos quais a meta do acordo de Paris é alcançada, assumem que a geoengenharia será aplicada em larga escala na segunda metade deste século.

O objetivo dos cientistas foi avaliar se essa suposição é realista. Para tanto, eles investigaram até que ponto as técnicas propostas de geoengenharia poderão efetivamente contribuir para a limitação do aquecimento.

Foi elaborado um cenário no qual as CNDs seriam plenamente cumpridas até 2030 e, a partir daí, as emissões cairiam para zero até 2100 em taxas anuais pré-definidas – 5% e 3% para as metas de 1,5°C e 2°C respectivamente. Uma vez definido o cenário, calculou-se a quantidade de carbono que deveria ser retirada da atmosfera, ou de energia que deveria deixar de ser absorvida, de modo que as metas fossem alcançadas.

Dos 12 métodos de geoengenharia avaliados, os cientistas consideraram que 7 se mostravam fisicamente capazes de atender à demanda necessária para conter o aquecimento. Contudo, todos os métodos provavelmente exigiriam décadas para o desenvolvimento em larga escala.

O desenvolvimento da geoengenharia também dependeria de suporte político e público. O artigo indicou que o conhecimento da possibilidade de aumento em grande magnitude de escala ainda é escasso, trazendo consigo incertezas técnicas e econômicas. Além disso, os impactos sociais e ambientais dos métodos ainda foram parcamente estudados.

No presente, a geoengenharia ganha cada vez mais espaço no imaginário coletivo, compondo uma visão sócio-tecnológica do futuro que influencia a elaboração das políticos climáticas atuais. Só que a contribuição dela para a mitigação do aquecimento global ainda é questionável, alertaram os cientistas.

Existe uma única maneira confiável de cumprir as metas do acordo de Paris: eliminar as emissões de gases de efeito estufa. Na aposta de que a geoengenharia resolverá os problemas do futuro, as chances de perder são altas.

Mais informações: Evaluating climate geoengineering proposals in the context of the Paris Agreement temperature goals
Imagem: figura 1 do estudo – ilustração dos diferentes métodos de geoengenharia analisados

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