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A falha da teoria e dos modelos econômicos

As teorias e os modelos econômicos dominantes, utilizados para subsidiar a elaboração de políticas públicas, não são adequados para lidar com a realidade das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade, bem como de outros problemas ambientais.

A afirmação foi realizada por pesquisadores de um centro de estudos da Finlândia. A convite das Nações Unidas, eles elaboraram uma análise sobre a necessidade e as alternativas de transformação das economias, de modo a se limitar o aquecimento global.

Os pesquisadores afirmaram que o mundo atravessa um momento de turbulência e de profunda mudança nos fundamentos energéticos e materiais das economias.

No primeiro caso, a era de energia barata está chegando ao fim. As economias estão migrando para fontes energéticas menos eficientes, apontou o relatório. Enquanto se esgotam as reservas de petróleo convencional, elas tem sido substituídas por reservas não convencionais, usinas nucleares ou fontes renováveis.

As reservas de óleo convencional exigiam uma pequena quantidade de energia para o seu desenvolvimento, e liberavam uma grande quantidade de energia para consumo das sociedades. As novas fontes, por sua vez, exigem uma quantidade maior de energia para seu desenvolvimento, produzindo volumes menores de energia para o consumo.

Os custos ligados à poluição também estão se elevando. Para os pesquisadores, esgota-se a capacidade dos ecossistemas naturais de absorver os resíduos gerados pelas sociedades. O principal exemplo constitui o aquecimento global.

Frente aos cenários de mudanças climáticas futuras e seus impactos potencialmente graves, os cientistas e os grupos de pesquisa defendem ações pró-ativas de governança e um grande engajamento político para transformar as economias.

Buscam com isso limitar o aquecimento, de forma a minimizar os impactos que virão.

Mas os economistas, por sua vez, usualmente apresentam uma perspectiva diferente. A ênfase recai em instrumentos econômicos, especialmente a instituição de um preço para o carbono, como medida preferencial para combater o aquecimento.

O problema, alertaram os pesquisadores, diz respeito às limitações atuais da teoria e dos modelos econômicos. Eles praticamente desconsideram as dimensões energética e material da economia. Estão baseados no pressuposto de um contínuo crescimento energético e material.

Portanto, tanto a teoria quanto os modelos lidam somente com alterações incrementais na ordem econômica vigente. Ordem econômica cuja vulnerabilidade se intensifica em função da crescente desigualdade, do aumento do desemprego, da pequena taxa de crescimento, da elevação dos níveis de endividamento e da perda de ferramentas de administração pelos governos.

E o que significa transformar as economias para limitar o aquecimento global? Elas terão que modificar o modo de produção e de consumo de energia, transporte, alimentos e residências, eliminando as emissões de gases de efeito estufa.

A análise resume alguns exemplos de ações necessárias em cada um desses setores:

  • energia: além de deixar de queimar combustíveis fósseis, que respondem atualmente por 80% da oferta de energia primária líquida global, toda a infraestrutura energética global deverá ser transformada. Uma das reformulações incluirá a proximidade entre os locais de geração e de consumo de eletricidade. Contudo, reproduzir as taxas atuais de crescimento da geração com o uso exclusivo de fontes renováveis consistirá em tarefa extremamente difícil, senão impossível. Poderá haver uma grande pressão no sentido da diminuição da demanda;
  • transporte: implicará na expansão do uso de bicicletas nas cidades e a eletrificação de outras formas de transporte. A produção de veículos e a infraestrutura precisarão ser reformuladas – incluindo o planejamento urbano. O transporte internacional de cargas não poderia crescer nas mesmas taxas atuais. O resultado geral seria um diminuição do setor, e não a continuidade de sua expansão;
  • alimentação: as mudanças climáticas irão introduzir grandes desafios à produção de alimentos, e as economias não poderão depender de apenas algumas áreas ou poucas variedades de cultivo para exportação. Ao mesmo tempo, países que hoje são grandes consumidores de produtos agrícolas precisarão reduzir sua dependência de importações, a fim de aumentar a segurança alimentar de suas populações. As dietas precisarão se pautar predominantemente em plantas e vegetais, em vez de carne e leite;
  • residências: exigirá que a indústria atravesse uma transição no tipo de material utilizado na construção, passando do concreto e do aço para a madeira. Isso exigiria a reformulação de toda a cadeia de suprimentos do setor. Novas práticas e tecnologias de condicionamento do ar precisariam ser desenvolvidas.

A lista acima parece retirada de um livro de ficção científica, pois representa uma profunda reestruturação da ordem econômica atual. Dessa forma, os pesquisadores apontaram que medidas baseadas no mercado não serão suficientes. Imprescindível será uma forte governança política para que planos tão ambiciosos se concretizem.

Os pesquisadores recomendaram a adoção de outros referenciais teórico, mais adequados aos desafios atuais, para subsidiar os estudos e modelos econômicos. Em lugar da orientação política a favor do livre comércio internacional, limitar o aquecimento global dependerá de uma governança econômica pró-ativa orientada pelo Estado e voltada para a produção e o consumo auto-sustentados e de baixa emissão.

Mais informações: Järvensivuhttps, Paavo  et. al.. Governance of economic transition (August 14, 2018)
Imagem: Pixabay

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