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A carne sintética pode ser alternativa à pecuária?

Uma nova tecnologia está sendo introduzida na indústria de proteína. Ela consiste no cultivo de carne, através do qual células musculares de animais são produzidas em laboratório. Também chamada de carne sintética, ela tem sido apontada como alternativa com menor impacto ambiental e emissões mais baixas de gases de efeito estufa do que as criações tradicionais.

No entanto, os potenciais benefícios da carne sintética para a mitigação do aquecimento global ainda não haviam sido avaliados. Estudo de pesquisadores de uma universidade do Reino Unido sugeriu que a produção da carne sintética não é, a princípio, mais vantajosa do ponto de vista climático. Depende dos sistemas energético e produtivo no qual está inserida.

A agropecuária responde pela emissão de diferentes tipos de gases de efeito estufa. Entre os principais, incluem-se o metano – CH4 – e o óxido nitroso – N2O. A derrubada de florestas e outras atividades produtivas também levam à liberação de dióxido de carbono – CO2.

Segundo o estudo, a proteína animal constitui um dos produtos alimentares com a maior intensidade de emissões. Usualmente, a quantidade de gases emitidos é proporcional à unidade de produção: quanto maior a quantidade produzida – por exemplo, em quilos de produto ou quilos de proteína -, maiores as emissões.

Um dos argumento a favor da produção de carne sintética diz respeito ao potencial de reduzir as emissões em comparação com os sistemas tradicionais. A hipótese seria de que os sistemas produtivos da carne sintética converteriam de modo mais eficaz os recursos utilizados, sendo mais econômicos e, portanto, minimizando a liberação de gases de efeito estufa.

Pesquisa anteriores tentaram calcular a pegada de carbono, adotando a metodologia de análise do ciclo de vida da produção de carne sintética. Todavia, seus resultados teriam limitações porque se basearam em comparações de volumes equivalentes de emissões de CO2. Deixaram de considerar o modo peculiar como cada tipo de gás de efeito estufa interfere no sistema climático.

No caso da avaliação de atividades produtivas de longo prazo, os pesquisadores indicaram que a pesquisa deve identificar, separadamente, os efeitos das emissões contínuas dos diferentes tipos de gás ao longo do tempo.

Aplicando esse princípio, eles utilizaram um modelo atmosférico para explorar a interferência no efeito estufa dos diferentes gases emitidos por um sistema tradicional e outro de carne sintética. As projeções incluíram três cenários diferentes de consumo de carne, estendendo-se por um período de 1.000 anos.

Independentemente do sistema produtivo, a manutenção de níveis altos de consumo de carne bovina seria incompatível com a mitigação do aquecimento global. Os sistemas de produção de carne sintética adotados no estudo não representaram necessariamente uma melhor alternativa do que a pecuária tradicional. O motivo era o tipo de gás liberado.

A pecuária tradicional emite grandes quantidades de metano, além de óxido nitroso e de CO2. Os dois primeiros gases, apesar de mais potentes, permanecem menos tempo na atmosfera. Levam a uma intensificação do efeito estufa em curto e médio prazo – entre décadas e um século. Por sua vez, a influência do CO2 se faz sentir por milênios.

As emissões da produção de carne sintética foram majoritariamente de CO2. No longo prazo, à medida que se acumulassem concentrações cada vez maiores do CO2 na atmosfera, um forte aquecimento ocorreria. Com isso, a produção de carne sintética não apresentou vantagens em relação ao sistema tradicional.

A utilização de energia foi um dos fatores mais importantes para o mal desempenho da carne sintética. Tomando-se por base que produção de um quilo de carne sintética exigiria o consumo de 360 MJ, o sistema consumiria cerca de 90 EJ para atender a uma demanda de 25 quilos per capita por ano, em um futuro no qual a população mundial tenha alcançado 10 bilhões de pessoas. Corresponderia a quase 23% do consumo global de energia em 2015.

Dessa forma, os impactos climáticos da carne sintética estarão associados à fonte de geração de energia. Quanto mais eletricidade renovável, menor a sua pegada de carbono. Além disso, a tecnologia ainda se encontra em desenvolvimento, não havendo um detalhe de como funcionarão na prática esses sistemas produtivos.

Provavelmente, os pesquisadores indicaram que o consumo de carne precisará diminuir mesmo com a disseminação da carne sintética. Só assim será possível limitar o aquecimento global. À medida que a tecnologia se desenvolve, novas pesquisas poderão investigar com maior profundidade os benefícios para o clima.

Mais informações: Lynch, J. and Pierrehumbert, R., 2019. Climate impacts of cultured meat and beef cattleFrontiers in Sustainable Food Systems3, p.5.
Imagem: Wikimedia

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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