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A árvore e o pé de café

Sistemas de café agroflorestais podem mitigar os impactos das mudanças climáticas. Eles representam uma alternativa viável de adaptação, apontou estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa.

As projeções apontam que a área favorável para produção de café deverá diminuir ao redor do mundo devido à alterações nos padrões de chuva e temperatura. Em resposta, os produtores terão de migrar o cultivo para outras áreas. Outras formas de adaptação às mudanças climáticas incluem o desenvolvimento de variedades mais resistentes, ou a adequação dos sistemas de manejo do café.

Um dos tipos de manejo com potencial para lidar com os impactos das mudanças climáticas são os sistemas de café agroflorestal. Eles consistem no plantio de pés de café junto com espécies de árvores de sombra. Esse tipo de manejo traz benefícios como a melhora do ciclo de nutrientes do solo, do microclima local, da biodiversidade, e do armazenamento de carbono.

O sombreamento proporcionado pelas árvores, mantido a taxas menores do que 50%, parece não comprometer o rendimento do café. Além disso, o sistema diminui a flutuação anual de rendimento observada em culturas não sombreadas. 

Contudo, a adaptação depende do conhecimento de como os regimes de temperatura e de chuvas irão se alterar no futuro. O estudo analisou as projeções dessas mudanças até 2050 na região montanhosa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, onde se localiza quase um terço das áreas de produção de café no Brasil.

Os pesquisadores avaliaram as projeções de 19 diferentes modelos climáticos, a fim de caracterizar as mudanças da temperatura e precipitação mensal da região até 2050. Através de um modelo bioclimático direcionado ao plantio de café, eles identificaram se até 2050 as condições climáticas se manteriam ou não favoráveis a cultivos não sombreados.

A partir daí, exploraram a possibilidade de aplicação de sistemas de café agroflorestal como medida de adaptação. As projeções levaram em consideração um cenários de médias emissões de gases de efeito estufa.

Mapa de áreas favoráveis ao plantio de café
À esquerda, mapa de áreas atuais favoráveis ao plantio de café. À direita, projeção de áreas favoráveis em 2050 com as mudanças climáticas. Cor verde indica condições menos favoráveis, cor vermelha, mais favoráveis. Fonte: adaptado da figura 3 do estudo.

Até 2050, as projeções indicaram que a região de estudo experimentará um aumento da temperatura e uma diminuição das chuvas. No inverno, entre abril e julho, a temperatura média subiria aproximadamente 1,3° C. Entre outubro e novembro, o crescimento seria de cerca de 2,1° C, acompanhado de uma queda de quase 60 mm no volume de chuvas.

Dessa forma, a estação seca do ano se tornaria mais longa. Uma vez que os pés de café dependem do ciclo sazonal da água, as mudanças na temperatura e nas chuvas causariam impactos negativos sobre a produtividade. 

O estudo estimou que até 2050, a área adequada ao plantio de café na região entre Minas Gerais e Espírito Santo poderia diminuir em 60%. Os principais cultivos de café afetados seriam aqueles em altitudes entre 600 m a 800 m acima do nível do mar. Apenas locais de produção com altitudes superiores a 800 m manteriam condições favoráveis ao cultivo.

Os impactos das mudanças climáticas poderiam ser reduzidos, em grande medida, pela adoção de sistemas de café agroflorestal. Eles atenuariam os efeitos negativos projetados para as culturas em altitudes mais baixas. O desenvolvimento dessa alternativa de adaptação, de acordo com o estudo, teria o potencial de manter 75% da área de cultivo atual da região ainda adequada para o café.

Em um sistema de café agroflorestal, as interações entre espécies de árvores, pés de café e o solo são complexas. O estudo alertou para a necessidade de mais pesquisa, de forma a desenvolver sistemas que considerem o contexto específico de cada local de produção.

Em um mundo em aquecimento, as árvores poderão ser a melhor companhia para pés de café.

Mais informações: Gomes, L. C., et al. “Agroforestry systems can mitigate the impacts of climate change on coffee production: A spatially explicit assessment in Brazil.” Agriculture, Ecosystems & Environment 294 (2020): 106858.
Imagem: figura 2 do estudo – gráfico de temperatura (linhas) e precipitação (barras) na região de estudo. A cor azul mostra as médias atuais e a cor vermelha, as médias projetadas para 2050.

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