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A agropecuária brasileira e a Amazônia diante do aquecimento global

Reduzir significativamente o desmatamento da floresta amazônica é essencial para amenizar mudanças climáticas severas na fronteira agrícola do Cerrado e da Amazônia brasileiros, afirma artigo publicado por um time de cientistas do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo o artigo, a Amazônia cumprirá papel fundamental na mitigação de potenciais mudanças climáticas futuras, como o aumento das temperaturas e das secas.

Desde a década de 1970, a bacia amazônica e o cerrado brasileiros (abrangendo os estados de Rondônia, Mato Grosso, Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás e partes do Piauí e da Bahia) tem sido a principal região do planeta em termos da expansão e intensificação da agropecuária e do desmatamento. A combinação de políticas públicas, pesquisa e desenvolvimento da infraestrutura fizeram com que o Brasil passasse de importador a uma das maiores potências agrícolas mundiais.

Esse processo de transformação teve seu preço. Até 2008, mais de 750.000 km2  da Amazônia e 825.000 km2 do Cerrado haviam sido desmatados, o que corresponderia a desmatar todo o território do Chile e da Namíbia combinados. Apesar de esforços do governo brasileiro levarem à drástica diminuição da taxa de desmatamento na primeira década deste século XXI, a derrubada da mata continuou, acrescentando até 2016 adicionais 50.000 km2 na Amazônia e 40.000 km2 no Cerrado.

As alterações no uso e ocupação dos solos, de acordo com os pesquisadores, transformou boa parte dos biomas amazônico e do cerrado em um mosaico composto por florestas úmidas, florestas secas, áreas pantanosas, campos, pastagens e áreas de cultivo, com implicações significativas para o clima regional. O processo de substituição e alteração da cobertura vegetal leva ao aumento da temperatura e pode interferir na quantidade de chuvas.

A retirada da vegetação causa a temperatura média anual a aumentar localmente mais que 5℃. No período de chuvas, a umidade do solo pode aumentar em cerca de 30%, e a vazão dos cursos d’água subir de 3 a 4 vezes. Dessa forma, alerta o artigo, enquanto em escala global há a preocupação em limitar o aquecimento global a no máximo 2℃ acima da média pré-industrial, alterações muito mais significativas tem sido experimentadas em pontos da Amazônia e do Cerrado brasileiros devido ao desmatamento.

Temperatura media entre floresta e area desmatada.png
Comparação entre áreas florestadas (no centro da imagem à esquerda, em verde) e áreas desmatadas (na cor marrom) da temperatura média anual do período 2001-2011. Áreas de floresta são mais frias (imagem à direita, em azul claro), enquanto que áreas desmatadas, mais quentes (cor vermelha). Fonte: Figura 1 do estudo

Todavia, não é apenas localmente que a retirada da vegetação influencia o clima. Os pesquisadores ressaltam que evidências agora indicam que a floresta é um elemento crucial do sistema climático. A retirada da vegetação poderia reduzir as chuvas anuais e encurtar a estação chuvosa em todas as regiões da Amazônia e Cerrado. Além disso, estima-se a existência de uma quantidade limite de área desmatada, acima da qual poderia ocorrer uma redução e redistribuição das chuvas em escala continental.

Dessa forma, a continuidade na degradação da floresta amazônica pode pôr em perigo a produtividade e os investimentos na expansão e intensificação da agricultura na fronteira agrícola da Amazônia e do Cerrado. Os pesquisadores alertam que as projeções de mudanças climáticas sugerem  que o clima da região irá se tornar mais quente e seco. Considerando o efeito moderador das florestas sobre o clima, a redução do desmatamento e da degradação em larga escala das áreas vegetadas constitui estratégia imprescindível para minimizar os impactos sobre a agricultura.

Mais informações: The Forests of the Amazon and Cerrado Moderate Regional Climate and Are the Key to the Future
Imagem: Figura 1 do artigo

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