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A agricultura manterá sua capacidade de adaptação?

As mudanças climáticas estão trazendo impactos para a agricultura e o rendimento das culturas. Mas os estudos da literatura científica sobre o tema quase sempre consideram que a distribuição geográfica das culturas continuará a mesma no futuro.

As projeções apontam que, em consequência do aquecimento global, deverá diminuir o rendimento das culturas e mudar as áreas adequadas ao plantio, com impactos severos. Por outro lado, também se prevê que o aquecimento tornará regiões novas para a agricultura.

Os impactos sobre a agricultura, afirmou estudo de pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, dependerão da capacidade de adaptação dos agricultores. Na teoria, uma das alternativas de adaptação às mudanças climáticas consiste na migração de áreas de cultivo.

A hipótese é de que haverá a possibilidade de alterar geograficamente a produção agrícola. Mudar o plantio de uma região na qual as condições climáticas se tornarem adversas para outra, com condições mais ou ainda favoráveis.

Todavia, segundo o estudo, além do clima, que é determinante na distribuição geográfica da agropecuária, existem outros fatores importantes. Entre eles, políticos, demográficos e econômicos. Por exemplo, a irrigação ou melhorias de cultivares podem expandir a área ocupada por certos tipos de cultivo.

A fim de entender melhor a alternativa de migração das culturas, os pesquisadores analisaram os últimos 40 anos, entre 1973 e 2012. Mapearam as mudanças históricas na distribuição geográfica global dos plantios de milho, trigo, arroz e soja não irrigados. O estudo incluiu o levantamento das temperaturas observadas durante a estação de crescimento e a exposição ao calor.

Identificou-se que o total de área ocupada pelos quatro grãos subiu significativamente no período, incluindo culturas irrigadas. Considerando apenas os cultivos dependentes exclusivamente de água da chuva, a área de trigo caiu em 10% e a de arroz, em 7%. A área global de cultivo de milho cresceu 24% e de soja, 158%.

As regiões que em 1973 eram ocupadas por milho, trigo e arroz experimentaram um aumento das temperaturas máximas médias entre 0,67ºC e 1,01ºC. No entanto, as alterações das temperaturas máximas médias na áreas ocupadas ao longo do tempo por essas culturas foi menor. No caso do trigo, as áreas de plantio chegaram a registrar uma queda de -1,57ºC.

Mapa migração do plantio de soja no sul da América do Sul
O mapa à esquerda apresenta as mudanças geográficas no plantio da soja entre 1973 e 2012. A cor verde indica expansão do cultivo. No quadro à direita, detalhe da área de soja no sul do Brasil e na Argentina. O círculo mostra o centro da região de plantio em 1975, enquanto que a seta o centro em 2012. Fonte: adaptado da figura 3 do estudo.

A soja apresentou resultados singulares. Entre 1973 e 2012, a temperatura máxima média das áreas de cultivo aumentou. De acordo com o estudo, isso representa uma expansão do nicho térmico do cultivar. Uma tendência relatada foi a da expansão da soja para climas tropicais, como é o caso brasileiro.

Em diferentes partes do mundo, observaram-se grandes modificações na localização geográfica das culturas. De modo geral, as mudanças abrangem um conjunto diverso de elementos, como o movimentos da fronteira agrícola ou da irrigação e a troca do tipo de cultura. As principais tendências foram, na América do Norte, a migração do milho e da soja para noroeste, no leste da Europa, do trigo para o norte, e a diminuição das áreas de arroz no centro e sudeste da China.

Os resultados confirmaram outras pesquisas. Mostram que temperaturas médias atuais durante a estação de crescimento das culturas subiu em comparação com a década de 1970. É um sinal das mudanças climáticas.

Impactos do aquecimento sobre o rendimento foram evitados pelo setor agrícola, mostrou o estudo, porque os plantios se moveram em direção a áreas mais frias, de menor exposição ao calor extremo. A principal forma de migração se deu por meio da substituição de culturas. Além disso, verificou-se uma expansão da irrigação, em especial ligada ao plantio de arroz na Ásia.

O estudo concluiu que, nos últimos 40 anos, a agricultura se adaptou, por meio da migração das culturas, às alterações causadas pelo aquecimento. Há dúvidas se o setor continuará com a capacidade de se adaptar, à medida que o aquecimento se acelere no futuro próximo.

Mais informações: Sloat, L.L.,et al. (2020). Climate adaptation by crop migration. Nature Communications11(1), pp.1-9.
Imagem: Flickr/ Marilze Venturelli Bernardes

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