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A adaptação não será nada fácil

A adaptação às mudanças climáticas demandará uma nova forma de gestão e de tomada de decisões. Essa foi a conclusão de estudo de caso de um pesquisador dos Estados Unidos. Quando os impactos se fizerem sentir no dia a dia das pessoas, encontrar soluções não será uma tarefa fácil.

O estudo avaliou a situação observada em uma cidade costeira no nordeste do estado da Flórida. A região é particularmente vulnerável ao aumento do nível do mar. A cidade enfrenta graves problemas relacionados à erosão causada pelo mar. Em parte porque uma rodovia estadual e outras infraestruturas, construídas nas décadas de 1920 e 1930, ficam localizadas muito próximas ao oceano.

Três opções para lidar com o problema foram propostas: construir um quebra-mar, recompor as praias ou relocar a infraestrutura mais distantes da costa. Promovida pelo administração estadual, o quebra-mar protegeria a infraestrutura atual, mas traria impactos sobre as praias locais. O turismo é um setor importante da economia da cidade e seria prejudicado, bem como a nidificação de tartarugas marinhas.

 A restauração das praias, sugerida por uma agência federal, minimizaria o problema da erosão e, ao mesmo tempo, poderia trazer benefícios ambientais. Mas a principal justificativa da proposta era por apresentar o melhor custo-benefício.

Todavia, em 2016 a cidade foi atingida por um furacão. A extensão dos danos levou a agência federal a revisar a análise de custo e benefício da proposta. Frente aos riscos associados a um novo furacão, conclui-se que a restauração das praias não se justificaria economicamente.

De acordo com o pesquisador, as duas opções acima priorizam o aspecto econômico. Elas se limitam a buscar formas de preservar a infraestrutura com o menor custo possível. Fatores ambientais e sociais, como, por exemplo, a conservação de praias e dunas, são tratados de forma secundária.

De uma perspectiva científica, ambiental e social, o pesquisador argumenta que a melhor opção seria a relocação da infraestrutura. Ela constituiria uma solução de longo prazo para a manutenção da infraestrutura. Permitiria também que as praias se adaptassem naturalmente ao aumento do nível do mar no futuro

Tal opção é, contudo, politicamente controversa. A comunidade local se opõem a tal solução por causa dos potenciais impactos. Entre eles, o prejuízo ao comércio ligado ao trajeto atual da rodovia, a interferência no trânsito da cidade, ou a perda de valor dos imóveis.

Os impasses relacionados a cada uma das opções fez com que nenhuma delas fosse adiante. Desse modo, a cidade voltou à estaca zero, onde se encontrava antes da proposição das três alternativas. Ela continua a lutar contra os problemas através de projetos temporários, sem possuir um plano de adaptação à erosão e ao aumento do nível do mar de longo prazo.

O estudo argumenta que os impasses podem ser superados através de uma nova forma de gestão e de tomada de decisão. Inclui uma colaboração mais eficaz entre os diversos níveis da administração pública – federal, estadual e local -, em conjunto com maior poder de decisão dos cidadãos e das organizações da sociedade civil.

A proposta é de expandir a discussão sobre o problema e a deliberação a respeito das alternativas, de modo a equilibrar critérios econômicos com a grande variedade de outras preocupações dos cidadãos. Um modelo de escolha social, mais participativo e coletivo, poderia resultar em uma gama mais rica de idéias e opções a serem trabalhadas.

O desafio seria alterar a forma como as decisões de interesse público são realizadas atualmente. Para o pesquisador, a iniciativa deveria partir da sociedade civil, de modo a impulsionar novas formas de tomada de decisão coletiva e democráticas. Para ele, frente ao aumento do nível do mar e às mudanças climáticas, não é possível confiar apenas no mercado ou no governo formal para oferecer soluções.

No vídeo abaixo, em inglês, o pesquisador apresenta um resumo do estudo realizado:

Fonte: Universidade de Lund
Imagem: Flickr/ Joe Flood – Flager beach, Flórida

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