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Glaciologia e as mudanças climáticas

A glaciologia, ramo da ciência que estuda as massas de gelo da superfície terrestre, converteu-se em uma das áreas centrais do estudo do aquecimento global. Mas não foi sempre assim. Na década de 1980, segundo artigo de cientista do Centro Ártico da Universidade de Lapland, na Finlândia, a contribuição da glaciologia para a ciência do clima ainda era muito pequena.

O primeiro passo na direção do maior protagonismo da glaciologia ocorreria através da análise do núcleo de gelo de Vostok, na Antártica Oriental. Uma parceria entre cientistas franceses e soviéticos resultou na publicação, em 1987, de estudo sobre os isótopos de água estáveis ​​do gelo e as concentrações de gases de efeito estufa, metano – CH4  – e dióxido de carbono – CO2 -, identificadas nas bolhas de ar.

Uma clara correlação entre as concentrações dos gases de efeito estufa e as temperaturas do ar sobre a calota polar da Antártica foi detectada. A análise do núcleo de gelo, de 2 km de profundidade, também extraiu informações sobre o ritmo constante da glaciação, em ciclos com cerca de 110.000 anos.

A alteração da temperatura, ressalta o artigo, constituía uma resposta às mudanças na geometria orbital da Terra – o chamado ciclo de Milankovitch. A descoberta do núcleo de gelo de Vostok mostrava que os gases de efeito estufa desempenhavam um papel amplificador no comportamento do sinal de temperatura global.

Gráfico com informações extraídas de núcleo de gelo sobre temperatura (linha azul) e concentrações de CO2 (linha vermelha) e CH4 (linha verde) nos últimos 160.000 anos. Fonte: figura 1 do artigo.

Depois de Vostok, diversos outros estudos de núcleos de gelo da Antártica e da Groenlândia confirmaram a variabilidade do sistema climático ao longo dos milênios. Os registros paleoclimáticos trazem informações sobre o ciclo das glaciações, mas também sobre flutuações locais mais rápidas, devidas às peculiaridades da Antártica e da Groenlândia.

Dessa forma, lembra o cientista, a glaciologia promoveu a melhor compreensão do contraste climático entre os pólos. O Hemisfério Norte se caracteriza pelo Oceano Ártico ocupando o centro do círculo polar, cercado por diversas massas terrestres. Nas glaciações, grandes lençóis de gelo dominam a Groenlândia, o leste do Canadá e a Escandinávia. Essas massas de gelo interferem nos padrões de circulação atmosférica. Mas somente a calota polar da Groenlândia permanece nos períodos interglaciais, e a interferência na atmosfera desaparece.

Por sua vez, no Hemisfério Sul o círculo polar se localiza no continente da Antártica. O continente é cercado pelo Oceano Antártico, e as massas terrestres mais próximas não são capazes de suportar grandes lençóis de gelo. Dessa forma, durante a sucessão de ciclos de glaciação e interglaciais, os principais padrões de circulação atmosférica permanecem em grande medida inalterados.

Além da configuração dos continentes e oceanos, outro fator diferencia a Gronelândia da Antártica. A circulação das águas do Atlântico – chamada de Circulação Meridional do Atlântico – transporta calor em direção ao norte e aos mares do Ártico. De acordo com o artigo, estima-se que as correntes do Atlântico forneçam 30% do calor do norte da Europa. Com isso, a região se torna consideravelmente mais quente do que regiões da Ásia localizadas na mesma latitude.

A Circulação Meridional do Atlântico pode alterar suas características em função de fatores como a densidade e a temperatura das águas. O fato ocorre durante os ciclos de glaciação, contribuindo para tornar o registro paleoclimático da Gronelândia mais variável do que o da Antártica.

A investigação das calotas polares pela glaciologia obteve informações preciosas sobre o passado do sistema climático terrestre. Já o estudo das geleiras continentais levanta evidências da acelerada mudanças em curso devido ao aquecimento global. As geleiras de regiões montanhosas alcançaram as extensões máximas no século XIX ou início do século XX. Elas atravessam agora uma tendência geral de retração.

A principal consequência do aquecimento sobre as massas de gelo diz respeito ao aumento do nível do mar. Segundo o pesquisador, a ciência busca compreender a quantidade futura de aumento do nível do mar causada pelo derretimento das calotas polares da Groenlândia e da Antártica. E a velocidade desse aumento.

Apesar dos grandes avanços observados nas últimas décadas, há diversos tópicos relativos a processos e dinâmicas das calotas polares que estão em estágio ainda bastante imaturo. A glaciologia terá ainda pela frente uma participação fundamental na ciência do clima. Seus resultados serão críticos para a projeção de possíveis níveis do mar no futuro.

Mais informações: Glaciology and Global Climate Change
Imagem: Pixabay

3 Comments

  1. […] gráfico de Vostok representou um marco na glaciologia. A retirada de núcleos de massas de gelo para análise em laboratório teve início na década de […]

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